quinta-feira, 19 de março de 2009

Deliciosa nostalgia.

O melhor presente de todos os tempos!
A Toca tem uma vitrola!!!!!
... acho que definitivamente não vou cansar de dizer "muitos obrigadas".
Muito obrigada, Fontes!

segunda-feira, 16 de março de 2009

Regurgitofagices - parte 1

"Casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo. A mais linda, a mais amada, respeitada, cuidada... a mais bem comida. E a pessoa mais namorada do mundo e a mais casada. E a mais festas, viagens, jantares... Casa comigo que te faço a pessoa mais realizada profissionalmente. E a mais grávida e a mais mãe. E a pessoa mais primeira discussões. A pessoa mais novas brigas e as discussões de sempre. Casa comigo que te faço a pessoa mais separada do mundo. Te faço a pessoa mais solitária com um filho pra criar do mundo. A pessoa mais foi ao fundo do poço e dá a volta por cima de todas. A mais reconstruiu sua vida. A mais conheceu uma nova pessoa, a mais se apaixonou novamente... Casa comigo que te faço a pessoa mais "casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo"."
(Michel Melamed - Regurgitofagia)

"É preciso amar!
Mas sempre achamos que nosso amor é tão grande, tão forte, tão infindável, que pode passar por qualquer coisa. Que ele vai aguentar.... e por achar isso, fazemos nosso amor passar por tudo, por achar que ele vai aguentar. Acontece que não aguenta. Acontece que não é infinito, nem forjado em ferro, nem aguenta tudo, nem dura pra sempre. Amor não deve ser levado às últimas consequências. Ele não chega até lá...
Tem de ser bem cuidado. Amor é sentimento. Sentimento dos outros. Frágil.
Cuidar melhor dos amores para amar mais..."
(da peça Homemúsica, do Michel Melamed também... não necessariamente nessas palavras)

segunda-feira, 2 de março de 2009

dramas existenciais

de repente uma vontade...

de mãos dadas, pensamentos, beijinhos, cinema juntinhos, sorvete no domingo quente, namorandinhos.

ahh. que nada!
me dá logo uma breja,
uma longa conversa com as meninas
(romântica, sob as àrvores verdes e a lua bêbada),
e uma pilha de livros
que eu vou.

de cara.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Estender a mão

Você tem idéia do que é ter fome, pedir ajuda, e não ser atendido? Eu, como todos vocês que leem esse blog (acredito eu) não tinha idéia do que era isso. Não tinha idéia até passar por essa situação, no caos aéreo argentino, em julho passado.
Estávamos presos num galpão há cerca de cinco horas, sem água ou comida, sem poder sair e sem previsão de embarque. Num dado momento chegaram galões de água e tabletes de chocolate (a versão hermana das barrinhas de cereais distribuídas no nosso caos aéreo) para tentar acalmar as centenas de pessoas. Eu estava há umas oito horas sem comer e corri para tentar pegar um chocolate. Por bastante tempo fiquei com a mão estendida, entre tantas outras mãos, tentando conseguir algo, e já via com desânimo que os tabletes iam acabando e que minha mão, entre todas as outras, era sempre recusada.
Desânimo, tontura, tristeza, revolta muda e infeliz de um estômago vazio e de uma pessoa ignorada. Foi isso tudo que senti na hora - e foi uma das piores e mais humilhantes sensações pela qual já passei - se não a pior. Por fim, um bom senhor percebeu que eu estava à beira das lágrimas e prestes a desmaiar (e estava mesmo, juro!) e insistiu com o argentino dos chocolates para que me desse um tablete.
Depois que acalmei meu rombo no estômago, minha revolta muda, minhas lágrimas de nervoso e alívio, comecei a pensar naqueles que dia a dia passam fome, que dia a dia passam por essa mesma situação de pedir e não ser atendido, que provam todo o tempo dessa humilhação, tontura, desânimo, revolta muda e infeliz. Fiz então uma promessa: nunca mais recusar ajuda a quem me estendesse a mão, pedindo. Não vou ser hipócrita e dizer que desde então ajudei a todos aqueles que me pediram alguma coisa (ou eu já teria falido também, afinal de contas) mas na medida do possível e no alcance do meus trocados, o fiz.

Agora vieram as inscrições do Redigir. É na verdade uma alegria fazer os plantões. Em um deles uma inscrita conversou comigo por alguns minutos - e neles me contou boa parte de sua vida, e me fez perceber o quanto faz diferença para alguns, para ela, uma simples, pequena oportunidade. Para alguns, essa simples oportunidade de um curso pode ter uma importância bem maior do que talvez possamos imaginar. Porque não é apenas um curso - mas também atenção que é dada, para pessoas que em geral passam invisíveis para grande parte da "sociedade", das classes A e B, dos "intelectuais" ...
Algumas pessoas dizem que fazemos um sacrifício adimirável, tocando pra frente o Redigir. "Esses meninos aí valem ouro!"
Não, não sou de ouro nem faço um sacrifício. Faço com alegria. Mais do que sentir estar fazendo o que é certo, me sinto feliz. Feliz por ver as pessoas felizes, esperançosas com uma oportunidade que lhes é dada. Feliz, porque assim como é melhor dar presente do que receber, mais bem nos faz ajudar do que ser ajudado. Presente, por fim, quem ganha sou eu.
Será que era só um sonho? Só um lindo sonho de pontas?
Será que simplesmente acabou, passou, e sobrará, depois só a admiração?

Que verdade se esconde naquele grande envelope lacrado?

Espero, sem pressa. Mas com muita, muita pressa.

Espero só... e que mais posso fazer se não esperar?

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Casa.

Era um fim de tarde, e entre o caos da mudança, sozinha no apartamento, parei para ver o sol se pôr. Pois é tão linda a vista da minha janela. Aqui, bem aqui, bem embaixo do meu nariz, esse grande verde, grandes árvores, algumas recobertas de flores roxas. Ali, (uma ali ainda perto), a marginal, onde além dos incessantes carros, pode-se ver passar devagar o trem, em tamanho de apenas trenzinho de brinquedo, vivamente vermelho e azul. Ali, depois, os prédios. São de todos os jeitos: os bem altos, espelhados; os brancos, avarandados; os baixos, só janelas, mais humildes; os puros cinza-concreto, sérios, públicos, entremeados de casinhas também. Diversas antenas, um flash a piscar, as luzes da cidade começam a se acender.
E, além... ora, se não é incrível! Os prédios e casas não continuam até o além. Não se perdem da vista, no infinito, na cidade sem fim. Eles cessam ali, e o que há além são morros, verdes morros que aparecem em pesadas massas negras. É esta longa e ondulante serra meu aconchego: ter a impressão, falsa, eu sei, mas tão vívida, de que a cidade se acaba ali, nos morros, onde a vista pode facilmente alcançar, e reconhecer aqui e ali a moradia de um amigo, a faculdade... (Tão semelhante a uma outra vista que tinha da janela de uma cozinha... São José se desdobrando, subidas e descidas, aqui a casa da vó, ali a igreja matriz, lá a escola, depois o clube... e acabando ali, além, nos ondulantes morros de verdes mil.)
Oh! E o infinito além aqui está acima dos morros, depois do Pico do Jaraguá, acima disso tudo, quem diria! O céu! Em toda sua contínua imensidão, e não recortado por fios e prédios. Azul. Nuvens brancas se espalham, inebriantes, entre reflexos cor-de-rosa e o pôr-do-sol alaranjado à esquerda. A lua, minguante e fininha, semi-transparente, já dá as caras ali em cima. Agora espero, esperançosa. Quem sabe mais tarde seja possível até ver (raridade das raridades) estrelas!
Sinto-me sortuda, feliz, aconchegada. Em casa. Minha casa.
Minha primeira própria casa.

Ah! Sou sim, muito sortuda! Duvido que alguém tenha uma vista de São Paulo tão bucólica quanto esta da minha janela!

ps.: Depois as estrelas apareceram sim (meio tímidas, concordo, mas apareceram). E lá longe, subindo o morro, uma porção de luzinhas tremulejavam, lusco-fuscamente (depois eu me preocupo com o fato de serem, na verdade, as luzes de uma favela, mas deixa no momento eu me encantar ao pensar em como elas parecem chamas de uma porção de velinhas tremendo ao longe). E o amanhecer é quase tão bonito quanto o pôr-do-sol. Quem sabe um dia eu chegue a tempo de ver uma aurora...

domingo, 25 de janeiro de 2009

À minha mãe.

Dizem que somos iguais. Pouco mais de um ano atrás eu odiaria ouvir isso. Pois agora me alegro. Sim, temos muito, muito, muito em comum; sim, temos nossas diferenças e estranhamentos também; sim, não damos certo morando juntas; mas sim, amo encontrá-la assim, de visita. Aceitação, compreensão... até que eu gosto, e muito, dessa tal de certa maturidade.

É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar mais depois de ter amado. (depois me lembro o escritor dessa frase - escritor bem sabido dessa vida, podes crer!)
Saudades já, mamãe! Amo você.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Embaile

Ok, eu posso ficar dois meses sem fazer um passo de ballet (à força - muita força e muita dor). Mas minha cabeça não fica longe daquilo que amo:

www.embaile.blogspot.com
É que tem dia em que a lágrima cresce, que o corpo padece e a gente entristece. Tem dia que a gente merece, porque nem adianta fazer tanta prece. Acalmar com báslsamo o buraco da alma, dar a ela o que ela carece. Tira-se o papel metalizado, colorido, do peso momentaneamente se esquece, mordida atrás de mordida que o coração pouco a pouco se aquece. Abraço de chocolate.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

De volta ao dia-a-dia:

Edgar Degas - Dance Class at the Opera on Le Peletier Str.,1872 - Musee d'Orsay, Paris, France

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Essência

No alto de um morro, de pasto, de pés descalços na terra bem vermelha. Na minha essência está a música, e é um batuque de cordel que vem, são os pés a bater no chão que vem, é a dança desvairada, louca, com sorriso, gritar e tontura. (tontura de a visão branquear, branquear, branquear...) É a poeira de um chão negro, é a sujeira e os pés descalços e o suor de corpos que se encontram, uns, outros, todos, corpo contra corpo, silêncio, respiração sincronizada, um corpo só, um bicho só respirando juntos em dois. Arrepio que corre pele, água que empapa olhos, respiração acelerada que se tenta em vão cuidar. São as pedras de mariazinha, mariazinha que nem merece um "m" maiúsculo entre todas as outras marias. A ciranda das saias rodadas, os meninos encantados, pele e osso que só. Saudade sem tamanho. Uma guerra na essência, antes um massacre, genocídio. Ah, lá no alto do morro o Bom Jesus Conselheiro, Joana Imaginária, marias-velhas e mariazinhas e meninos encantados sem fim. Um menino, dois homens feitos e um velho, à frente dos quais rugiam dois mil soldados. Igrômetros singulares, página vazia. Poesia da terra, de terra, de lona velha, guardada, cheia de cheia de terra, de pedra, de sangue e suor. Ave Maria gratia plena, dominos tecum, benedicta tu in mulieribus... Cheiro de maquiagem antiga, batom rubro, grampos dourados, pó. Pó por todos os lados, nas grandes saias guardadas, no tecido mofado, nas fotos rasgadas, nas rendas antigas. Era uma janela ali, janela com grades, armário antropomórfico, e uma respiração de dar arrepios. Tão grandes arrepios, tão grandes. Ahhhhhhhhhhh.
Uma tempestade. Trovão. Clarões. Vento sem fim. Vontade de sair. De ir. Sumir. Inquietação. Inquietalma. Chove. (ninguém dorme)


Dos Três Mal-Amados Palavras de Joaquim - O Cordel do Fogo Encantado:

"O amor comeu meu nome,
minha identidade,
meu retrato.
O amor comeu minha certidão de idade,
minha genealogia,
meu endereço.
O amor comeu meus cartões de visita.
O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas,
meus lenços e minhas camisas.
O amor comeu metros e metros de gravatas.
O amor comeu a medida de meus ternos,
o número de meus sapatos,
o tamanho de meus chapéus.
O amor comeu minha altura,
meu peso,
a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu minha paz e minha guerra,
meu dia e minha noite,
meu inverno e meu verão.
Comeu meu silêncio,
minha dor de cabeça,
meu medo da morte."

domingo, 11 de janeiro de 2009

Visões

Pela rua úmida da chuva de um dia inteiro seguia aquele estranho, triste cortejo. Um sem-número de moças cabisbaixas, agarradas aos braços umas das outras, caminhando lentamente, sem vontade, passos trêmulos. Todas, belos, alvos vestidos, cozidos das mais finas rendas e bordados, para recobrir os castos corpos naquele dia que deveria ser o mais especial.
O som das inúmeras saias, de tantos tecidos roçando uns nos outros, passo a passo, era o único que se ouvia, além das tímidas réstias de choros abafadas, e das últimas águas que gotejavam dos beirais de telhados. Passo a passo, as barras branquíssimas daqueles vestidos iam tornando-se marrons, invadidas de barro. Sobre a cabeça de cada moça, sobre cada belo vestido de noiva, um véu negro de luto. Rosários sem fim a se desfiar.
Pobres virgens de sonhos despedaçados, tornadas todas, num golpe só, viúvas, pouco antes de subirem ao altar.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Às cucuias com a má-informação

Um engraçadinho fizera-me acreditar que a Dona Crase tinha ido para as cucuias com a Reforma Ortográfica. Ainda bem que não foi. Eu gosto de uma Dona Crase bem empregada.

Terra do Nunca

Sim. há coisas que nunca, nunca vão mudar.
Tudo aqui, o mesmo. Há vinte anos, o mesmo. Nos próximos vinte também, o mesmo.
Os rostos envelhecem, ganham rugas e pés-de-galinha. As crianças se tornam moças. As moças se tornam mulheres casadas, com aliança no dedo, barriga a se formar, mau-humor, e um quarto próprio. Novas crianças, vindas nem se sabe de onde, surgem (sempre, sempre, uma criança diferente a brincar na varanda). Percebe-se a passagem do tempo pelas pessoas, somente. Todo o resto, imutável.
Cor própria tem este lugar. Marrom. Marrom escuro da terra vermelha, transformada em barro pastoso, que tudo impregna. O chão de cimento cru, tornado marrom pela terra que entra nos pés, pelo tempo. Marrom as portas, os móveis, a geladeira, os azulejos do sofá de cimento quase inutilizado da sala, os pratos e canecas de vidro em que se come. De marrom são pintadas as paredes até a metade. E o vermelhão. Vermelhão do chão da varanda, liso, escuro, frio, bom de se pisar descalço. Vermelhão também das muretas da varanda, boas de se sentar, as costas apoiadas nas vigas de madeira - tronco rústico - para almoçar, o prato fundo bem cheio apoiado na almofada sobre as pernas. Vermelhão do fogão de lenha, sempre uma brasa a arder, sempre panelas repletas, sempre quente a cozinha, sempre água aquecida para o banho na serpentina.
Imutável essa rotina. Cedo, cedinho se levanta. Às seis já não há sono. Café, bolo, pão, manteiga, queijo fresco (aquele feito mesmo ontem, que estava a secar na estante da varanda), biscoito de polvilho e biscoito doce, rosquinhas de côco que nunca se há de experimentar tão boas em outro lugar. Dia e noite a TV, na varanda, incansável, sempre a tagarelar sem pausa e sem pedir água. É a mesma de sempre velha e boa TV, ligada à mesma de sempre velha e boa antena parabólica, sintonizada na mesma de sempre velha e (boa?) Rede Globo de Televisão.
Trabalho na casa há sempre a se fazer. Varre-se o chão com a grande vassoura de palha, lava-se a varanda com baldes e um latão cortado pela metade, repleto d'água. Na cozinha, sempre louça a lavar, comida a refogar, bolo ou pão a assar, doce no tacho a borbulhar, queijo na esteira a coalhar. E, é claro, o tempo todo café novo a se coar. As vozes das mulheres trabalhando enchem a casa. Falam alto, no sotaque arrastado de se comer letras. Falam das coisas da casa, falam dos conhecidos, falam das novelas e artistas da TV, danam com as crianças. Solta-se uma piada qualquer e o lugar todo se enche de risos. Não há espaço aqui para o acanhamento ou pouco falar. As crianças logo cedo aprender a tagarelar, sobre tudo e com todos, como fazem os adultos. Importante lição é saber danar com os outros. Gritar, soltar ameaças vazias, troçar com um e com outro para causar a gargalhada geral.
"Uai, minina, acord'ireito, abre essis'óio."
"Don'Ana, quant's copo di arroiz qui'eu afogo?"
"Má ondié qui foi a diaba daque'a minina? Ondié qui e'a lavô us pé? Má si foi no banheiro e'a vai levar uma burduada!"
"Foi não, e'a lavô us pé lá fora nu tanqui, num foi Gabriele?"
Muito mais bichos do que gente vivem aqui. Além dos dois cachorros e das vacas e cavalos nos pastos, tudo em volta da casa é cheio de vida. Os passarinhos cantam o dia todo, infinidade de tons e diferentes sons. Eles vêm mesmo pertinho, comendo as mangas podres que se espalham no chão sob as árvores todas, ou então entram furtivos na cozinha, a comer os farelos sobre as mesas. Um ali foge para salvar a vida, que o cachorro maior dera de querer brincar com ele à boca. Outro, pequenino filhote, aceita o dedo como puleiro por alguns minutos, proximidade mágica, até que decide voar de volta à magueira. As galinhas e o galo ficam soltos, bicando e andando aqui e acolá, por todo o entorno da casa. O dia inteiro as moscas e mosquitões pretos pairam por toda parte, sentando-se nos cachorros adormecidos, nos pés das gentes, nas comidas destapadas. Vez por outra, um pouquinho adiante, no caminho para o barracão ou para o curral, encontra-se uma cobra, e corre para lá o fazendeiro ou sua mulher, pedaço de pau à mão para matá-la. Essa daí era só uma cobrinha d'água, mas a ela se seguem os causos, da cascavel na qual quase se pisou, só um pouquinho ali à frente, da coral que por pouco não pegou aquele mulequinho que andava por ali, do escorpião que foi encontrado com susto no banheirinho lá de fora.
Você não tem fome, mas soltam lá da cozinha: "Tá pronto, vem almoçá!". E como não antender, mesmo que a fome não atenda, se no fogão de lenha borbulham as panelas velhas de ferro, com a comida boa como sempre e como nunca, que se encontra só aqui? Prato fundo, de vidro marrom, salada, tomate, pepino, legumes cozidos, com cor, tanta cor, que nunca se viu chuchu mais verdinho ou mandioquinha tão amarela quanto esses. Arroz, feijão. Ah, esse feijão! Carne, ovo, macarrão, maionese. Tudo bem temperadinho, tempero mineiro, com pimenta. Uma jarra grande, bem grande, plástico azul, de suco. De acerola, de tamarindo, de fruta de verdade que você ainda sente os pedacinhos. Sobremesa. Doce de leite, de goiaba, de banana, de caju, de figo. Para terminar, o café novo, acabou de sair. Isso é também imutável: não há como passar aqui uns dias, uma semana, sem ganhar a mais uns quilos.
Depois do almoço, da louça lavada, do jornal acabado, todos de repente somem, ao trabalho, à sesta ou à cidade de passeio, e a cozinha fica quieta, vazia e escura, somente com uma brasinha ainda tímida a arder e a garrafa de café que dura por todo o sempre.
O Sol queima e esquenta. De bicicleta desce-se, estradinha de terra pelo pasto verdinho, até a represa. Uma imensidão de calmaria, de céu e água. Silêncio. A água é verde vista de longe, e transparente de dentro. Nada-se longe, fundo, até aquela árvore lá, vê? E de lá ainda avista-se o fundo, de terra vermelha e conchinhas brancas, bem abaixo de seus pés. Subir nessa árvore, conversar sem pressa nos galhos de uma árvore cercada d'água... ah! Morna, morna, quente. Boiar de costas, com os pensamentos perdidos na imensidão do céu azul, das formas das nuvens.
À tardinha vem a chuva. Primeiro, na verdade, o vento, e a correria para se tirar aquela imensidão de tapetes do varal. Então a chuva. Forte, forte, abriga-se na varanda, mas de repente as telhas velhas não dão mais conta e na varanda passa a chovar também. Passa-se à cozinha, onde o jantar está para ficar pronto. À noite torna-se para o jantar, para a TV e a falação. Os cachorros deitam-se preguiçosos no meio dos pés das gentes da varanda. Os besouros e mais uma infinidade de bichinhos de asas voam ao redor das luzes, batendo insistentemente na tela da TV e nas pessoas, espalhando-se pelo chão. Atraídos pela refeição farta, os sapos coaxam pertinho, é só olhar para além da muretinha e se avistar um, ir até a varanda dos tanques e quase pisar em dois, sair na porta da cozinha e encontrar mais um, logo ali no degrau. Às vezes, um mais inxerido vem se instalar embaixo de um dos bancos onde as gentes sentam, ou sob as geladeiras da varanda, para interesse das crianças e brinquedo cruel dos cachorros. Terminada novamente a janta, as louças, a novela. Os últimos causos são contados em volta da mesa, enquanto mingua a fila do banheiro para se escovar os dentes. Enfim todos prontos, sonolentos, vão para a cama. Sobra só o cantar das cigarras e o coaxar dos sapos, que tornam-se, enfim, os reis da varanda.
Aqui, sempre esse aqui, imutável. E chegar depois de ano e meio, e constatar que tudo continua no mesmo lugar, do mesmo jeito que sempre foi, de que sempre se lembra, os mesmos gostos, cheiros, sons. Um aconchego bom. Aqui se tem a sensação de uma imobilidade do tempo, mas ela não é esmagadora, não. É antes uma terra encantada, em que nada, nunca, nunca vai mudar. Aqui, esse sempre aqui, é a minha terra do nunca.


"Ô Mariana, sabe o filho do juiz? E'e troxe p'á cá a bicicleta, o computador, mai e'e não brinca. E'e é gente pequena mai parece gente grande."
"E gente grande é como?"
"Gente grande é chata."
"E eu, sou gente pequena ou gente grande?"
"Ocê é gente pequena. Cê brinca, anda de bicicleta..."


... sorri, feliz. E continuei a pedalar pela estradinha cheia de lama. A menina grande na bicicleta com a menina pequena na garupa, e os dois cachorros correndo à frente, pelo pasto.
Muito me alegra agradar às gentes pequenas.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Faxina

Triste, varro a casa. Para longe com todo esse pó. Triste a varro (pela última vez?). Para longe, com sorte, as lembranças também. Varro todo esse chão, os azulejos brancos que escolhemos em viagens e visitas às cerâmicas. Com a vassoura tiro grandes teias de aranha que tomaram conta da varanda. Varanda, aquela varanda que imaginávamos com redes, cadeiras e tardes de leituras. Passo pano pela sala. As suas paredes, nós mesmas as pintamos, com a ajuda dos amigos num dia que acabou tarde da noite, com cansaço, suor, conversas, risadas.

Me largo um pouco a observar o quintal sujo, mal-cuidado: terra batida somente, mato seco, telhas amontoadas a um canto. A grama lisinha que esperávamos nunca chegou. Nem a unha-de-gato para o muro. A pequena horta de temperos e chás também não. As treliças com parreiras e flores de maracujá... Aquela muda de primavera não vingou para plantar ladeando o portão. Nem mesmo o balanço de pneu embaixo da velha árvore. Tampouco a tal da casa na árvore que ele semi-planejara. Para tudo faltou tempo, faltou dinheiro... (mais dinheiro do que tempo se me permitem comentar).

Só no pequeno canteiro temos flores. Eu, a terra, a enxada, as mudas, uma tarde, as plantei. As rosas crescem, já quase metro e meio, vermelhas e brancas, cheias de botões. As margaridas florescem de gordas touceuiras. As lágrimas de cristo dão flor em cachos e certamente crescerão em volta da pilastra, como desejávamos. Só não estaremos mais aqui para ver. Só as azaléias é que continuaram tímidas e miudinhas (lá perto do chão só uma florzinha cor-de-rosa).

Pano com álcool para limpar a pequena pia: branca, de mármore, nosso pequeno orgulho (pois enchíamos assim o peito e dizíamos uma à outra, entre risadas: "Que chique nossa casa! Temos até uma pia de mármore no banheiro!" ). Força nos braços, pano e uma cadeira para tirar todas essa manchas dos vidros. Aqueles mesmos, tão sonhados, ( "Que vista linda!" ), que a duras penas foram quitados. Facas, alho, panela, arroz, feijão. Faço almoço para duas. Lembro tristemente que a minha comida (da qual todos sempre gostam) ele rejeitava sem nem sequer experimentar.

As mãos ficaram vermelhas, um pouco doloridas, duras, da vassoura, do rodo, dos baldes. Dolorido também meu peito, um pouco mais duro, com sorte, também.
A casa cheira a eucalipto. A cozinha a fins de almoço. Meu corpo a banho.
Fecho as malas. Vou-me embora. Vou para longe desses sonhos tristes e moribundos, para que morram logo, por inanição. Vou ficar algum tempo sem sonhos, algum tempo só presente, pés bem firmes no chão.

Essa casa vai ficar fechada, navamente suja e empoeirada. Mas vai ganhar bem no meio da fachada uma placa grande, destacada:

"Vende-se"

Uma outra casa, meio mal-assombrada (minha irmã-de-alma lá de Vitória é que entende desse tipo de casas) vou guardar numa gaveta lacrada. Portas trancadas, janelas pregadas. Triste relicário. Arruinada. Conservando aquele característico odor de sal, limão, pão-de-mel e cerveja.

Meu coração, terreno baldio, inapropriado para habitação. Só uma plaquinha. Talvez. No cantinho. Recatada. Pequena. Há muito não utilizada. Esquecida. Enferrujada. Onde mal e mal se lê a mensagem, semi-apagada:

"Aluga-se. Tratar com proprietária."

domingo, 23 de novembro de 2008

é que dói mais. e mais. e mais
e eu nem sequer consigo entender
por quê?

terça-feira, 11 de novembro de 2008

continuação

ou será só tristeza
o que me leva à loucura?

sussurros da noite

que tênue linha separa-me do arroio da insanidade?

já não levo eu as pontas dos pés banhadas nesta calma, murmurejante correnteza, que sussurra em meus ouvidos e ensandece-me?

o que fazer quando o comum já não é suficiente
e a loucura seduz-te,
amedronta, tal qual canto de sereia?
ouve! ela está cantando em meu ouvido
oferecendo-me o abraço apertado de que preciso!
sinto-me apavorada e seduzida
ela está cantando em meu ouvido.
mas que pavorosa canção!

tu chamavas-me louca só porque acompanhava-te em tuas idéias engraçadas, indecentes e perigosas
não fazes idéia de quão mais profunda é esta minha loucura.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

eu sonho melancolicamente
imagens loucas que nunca vou presenciar.

ah! esperança opressora,
quisera eu arrancar-te de meu peito!

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

De todo coração

material etéreo
gira nas pontas
voa, voa, leveza.

branca, bela, bailarina

mas é que ninguém vê
por detrás da brancura
suor, sangue, lágrima
(literalmente, não só
metáfora ou clichê)
fedor, inveja, superação
caminho doloroso rumo à
beleza. perfeição das
formas
solidão
paixão

branca, bela, ela voa
pula, gira, encanta

Ah, mas que encanto essa bela
branca!

terá matéria?
etérea.
branca, bela, voa
encanta.
Giselle? Coppélia?

de quê será feito, afinal, essa bela?
tintas de Degas?
acordes de Tchaikovsky?
ou movimentos de Berjat?

será de açúcar essa fada?
será ela Ana? Botafogo, Pavlova ou secretária?
leve, bela
anda nas pontas
numa poça de azul no palco.
mais parece andar no mar
no ar

brancas, belas, leves, etéreas
dedico esses versos a todas elas
que amam, que sofrem, se dedicam
para dançar
é, dedico a todas elas
que não tem coisa mais encantadora
mais bela
que bailarina a se movimentar

terça-feira, 28 de outubro de 2008

sabe, de repente a inspiração me fugiu
a espontaneidade me fugiu
a excitação também me fugiu
e você fugiu de mim

sabe, é que eu fico cansada de esperar
tem essas grades que eu quero quebrar
distância que devia deixar de existir

sabe, às vezes eu fico fraca, fico boba
e essa incompatibilidade de tempo machuca
e cadê aquela nossa ligação?


sabe, é que isso me lembrou Rousseau
(é, com seu Emílio e educação)
a gente sacrificando o presente
na esperança do que tá por vir

sabe, por um nada eu sou capaz de chorar
querer perverter, querer mudar
mas é que esse hábito de sonhar
(e rimar)
tá enraizado aqui

sabe, aí eu pego as lembranças boas
e me alimento delas nos tempos ruins
esperando
esperando
esperando o dia que muda
(será que muda?)
a gente espera que sim

sabe, ah você sabe que isso machuca!
não sabe?
mas não dá pra reclamar
você sabe, não? lembra?
foi a gente (fui eu) que escolheu assim















e lá vai você, indo embora no monza ...

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

De pedra (e alguns sonhos)

Por vezes pareço não ter mais forças. Por vezes tenho vontade de amolecer, dizer feminina, mole e bobamente "não me deixe só" para um alguém que se esconde no vazio. Simplesmente não mais resistir, deixar o peso ceder sobre as pernas moles, escorregar para o chão, escorregar nesse mau-estar.
Não mais resistir frente às centenas de rostos desconhecidos que esbarram meu caminho, aos carros que me cruzam em perigo constante, ao silêncio, à solidão, ao fedor que me invade as narinas, à tontura que me entorpece, às perdas, às ausências, às loucuras das relações e das pessoas. Dissolver. Disminliguir.
Mas então vejo minha silhueta na sombra projetada contra o chão. E percebo que não posso deixar-me amolecer, enfraquecer, pois assim estaria traindo a mim mesma.
Sim. Traição. Pois essa que sou é construção só minha.
Estive sempre sozinha, e sozinha me fiz. Em todos os tombos não apoiei-me em mão alguma para me reerguer. E, em todas as mais insanas dores estive só. Cada lágrima derramada foi matéria-prima do cimento que agora me sustenta.
Tive, por vezes, influências e abraços que me confortaram. Mas sozinha exorcizei meus próprios demônios. Sozinha descobri meios para isso. Apoiei-me na música, nas palavras e nos sonhos. A verdade é que ninguém me conhece por inteiro.
Pois assim me fiz. Sozinha, dura, de pedra. (É, assim mesmo, lembrando Clarice). Meus passos rápidos, meu olhar sério, são a minha obra prima e meu orgulho.
Não sei onde quero chegar. Mas sei que conto sempre comigo mesma.
E não devo me trair.
Fiz-me dura para viver; não para me esconder, não para esmorecer.
Para seguir meu caminho e enfrentar o mundo. (ou se não o mundo, ao menos as barreiras na minha frente)
Sem medo. Sem nojo. Sem vergonha.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

palavrinhas-chaves

poesia, liberdade, proteção, fertilidade

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Perdidos Achados

Não é sangue o que me corre nas veias,
é verdade.
A verdade que existo,
que estou aqui agora
e que meus pés tocam o chão.

Um rio de palavras me corre nas veias;
grande parte da minha matéria é de papel.

(25/02/08)

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

"Eu me aprofundei em mim e encontrei que eu quero vida sangrenta..." (Clarice)

Eu não sou boa.
Dentro de mim há também preconceito.
Floresce-me também raiva, medo, desdém,
orgulho, vaidade, ódio, desejo
e até alguma perseverança.
Não digas que sou boa:
não me conheces por inteiro.
Não me tires todo o peso,
pois essa leveza não combina
tanto assim com a minha alma.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Despertar Triste

uma ilusão tão viva...
estávamos juntos, todos conversando,
a pequena fazia bagunça com a válvula da descarga,
ela mostrava uma saia antiga,
ele só ouvia
e eu me preparava pra entrar no banho.
Era fim de tarde em casa de roça,
o vento soprava fraquinho,
peguei a toalha no varal, mato.
Ele pegou a pequena que fazia bagunça no banheiro -
eu ia tomar banho, oras!
Ela me ajudava a abrir o zíper do vestido nas costas.
No momento em que me virei
nada mais havia.
Só essa saudade, essa falta, o vazio...
e a cama quentinha que eu tinha de deixar.

terça-feira, 23 de setembro de 2008


Ela me olhou séria através do espelho.

_Sem dó?
_Sem dó!

A tesoura rangeu e muito cabelo vermelho foi ao chão.

sábado, 20 de setembro de 2008

úmido

é chuva, é cinza, é um sorriso ausente de meus lábios
até forço, mas ele não quer vir não

é saudade, são sonhos
sonhos de futuro, sonhos que embalam,
mas que também potencializam a saudade

é solidão, solidão...
e essa distância que corta, aperta.
afogo tudo no efeito narcótico dos sonhos, da evasão, sair de mim
(e talvez algum àlcool, passos de danças loucas...)

é bom até
conseguir por um momento
loucamente acreditar que os beijos jogados pela janela vão atingir seu destino
(então uma força vinda sabe-se lá de onde me faz realmente levantar, abrir a janela e soprar beijos para o ar da noite)
e essas lágrimas que não sei por que vêm
de onde vêm

só espero, loucamente também, ouvir as batidas dos abraços na minha janela

(onde estão? onde estão?)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Casa

Faz calor. Uns trinta graus. Sol. O tempo é seco. (umidade do ar cerca de 17% - mais de 140 dias sem chovar)
Quase cinco da tarde - o céu é claro, azul quase branco sobre o verde de um morro de um lado. Os pés de Macaúba se destacam entre as outras árvores. Do outro lado o Sol se esconde atrás de nuvens brancas, deixando os raios dourados passarem por suas bordas. A luz me deixa ver apenas o contorno negro da copa redonda e cheia de galhos retorcidos do grande pé de Espatódia.
Não vejo as cinzas agora, mas sei muito bem que a cana queimada me cerca por todos os lados. De vinte em vinte minutos a boca fica seca. Quero água.
Abri a porta da sala para deixar entrar uma brisa, mas o ar está parado. Somente o barulho dos carros que passam voando na rodovia.

Noite passada fiquei bastante tempo do lado de fora. Vendo a Lua e ouvindo os sons... do vento na copa das árvores, das folhas e ciscos sendo carregados pelo chão, das cigarras, da rodovia ao longe...

Minha vontade agora é deitar no chão da varanda - chão de azulejos brancos recém lavados, refrescar o corpo semi-nu.

Eu adoro esse lugar!

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

(in) Decisões

sou uma eterna busca
e um constante sentir

busco nos meus gostos um caminho . . .



pra ver se me encontro
________________________________

"Que sei eu do que serei, eu que não sei quem sou?"
(Pessoa - Tabacaria)

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Diário de viagem

Conhecer é mais que ver e visitar.
É conversar, perguntar, ler, ir...
e entao sim... conhecer.

domingo, 13 de julho de 2008

agora tenho certeza: nuvens sao mesmo feitas de algodao!
Um algodao muito bom pra se tirar uma soneca deve ser!

...Acima das nuvens o tempo é sempre bom....


(desculpem a falta de "tios" nos A´s. teclado hermano é diferente...)

domingo, 29 de junho de 2008

Nota. Vidas ressecadas, sonhos tão universais. Percebe bem a beleza duma canção de lavadeira.


O Cordel Estradeiro
(Letra e música: Lirinha)

A bença Manoel Chudu
O meu cordel estradeiro
Vem lhe pedir permissão
Pra se tornar verdadeiro
Pra se tornar mensageiro
Da força do teu trovão
E as asas da tanajura
Fazer voar o sertão

Meu moxotó coroado
De xiquexique e facheiro
Onde a cascavel cochila
Na boca do cangaceiro
Eu também sou cangaceiro
E o meu cordel estradeiro
É cascavel poderosa
É chuva que cai maneira
Aguando a terra quente
Erguendo um véu de poeira
Deixando a tarde cheirosa
É planta que cobre o chão
Na primeira trovoada
A noite que desce fria
Depois da tarde molhada

É seca desesperada
Rasgando o bucho do chão

É inverno e é verão

É canção de lavadeira
Peixeira de Lampião
As luzes do vaga-lume
Alpendre de casarão
A cuia do velho cego
Terreiro de amarração
O ramo da rezadeira
O banzo de fim de feira
Janela de caminhão

Vocês que estão no palácio
Venham ouvir meu pobre pinho
Não tem o cheiro do vinho
Das uvas frescas do Lácio
Mas tem a cor de Inácio
Da serra da Catingueira
Um cantador de primeira
Que nunca foi numa escola

Pois meu verso é feito a foice
Do cassaco cortar cana
Sendo de cima pra baixo
tanto corta como espana.
Sendo de baixo pra cima
voa do cabo e se dana.

domingo, 22 de junho de 2008

Desabafo. confuso, pode ser...

Já perdi as contas de quantas pessoas me disseram o quanto eu sou madura. Elas semprem dizem isso, em tom de elogio. E eu sempre aceitei também, feliz, em tom de elogio. Só que não é.
Na verdade é triste.
Olha só. Olha bem. Eu tenho só 17 anos e espinhas na cara. Eu devia ser só uma menina.
Não que eu não goste da maneira como sou agora. Gosto. Mas essa maturidade não foi por um caminho natural. Foi acelerada. Acelerada por coisas pelas quais uma menina não devia passar.
Porque é cruel. É cruel fazer alguém se tornar adulto de uma maneira mais rápida. Cruel porque é doloroso. É um caminho muito doloroso de se atravessar.
E também, quando se adianta um relógio, algo se perde. Pedaços de uma vida cronológica comum. Não pedaços que eu queira agora viver. Não combinam mais comigo. Mas é um sentimento estranho, talvez de falta, ouvir alguém contando de uma época, de um pensamento que tinham, de uma vivência que passou, e era boa. E você pensa... eu não tive uma igual. Nem parecida.

Pode soar confuso tudo isso, mas desabafos são assim mesmo. Confusos.
Eu sei que não sou a única forçada a amadurecer rápido, existem tantos mais por aí. Mas não devia ser assim.
Meninas deviam ser só meninas.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Lá no alto

as nuvens passam
formando e desformando figuras.
Bom mesmo é
ter com quem observá-las,
e depois guardar aqueles momentos
numa bolha de sabão.

domingo, 8 de junho de 2008

Óculos Roubados

Crianças gostam de observar. Elas reparam nas pessoas, nos detalhes, em cada pequena coisa, e põem-se a imaginar em cima delas. Eu acho que sou ainda criança: sento-me no metrô e observo rostos, roupas, expressões, sapatos para lá e para cá.
Minha infância foi de andar a pé, por estradas de terra, pontes banguelas de madeira sobre córregos , ruas de paralelepípedos e atalhos por entre pequenos bosques (e o mistério e o medo de uma casa escondida nesse bosque, como casa de roça, com gente velha, imagens de santo, cheiro de fogão de lenha, folhas secas na frente, cantos, velas e usualmente oferendas - e o medo do desconhecido). Ou, no mais longe, andar de fusca. Fusca sem bancos (só o do motorista sobrevivia), entre cartelas e montanhas de ovos - segura eles nas curvas pra não tombarem! Os costumeiros dias de entrega: terça, quinta e sábado - anota os pedidos na listinha, prende no painel do fusca, cartelas, saquinhos e todos aqueles ovos. E todo aquele cheiro - cartelas de papelão, ovos.
Imagino como é, então, na infância andar de metrô. Desde cedo: muita gente; desde cedo: tome cuidado; desde cedo: não converse com estranhos; desde cedo contando estações, aprendendo seus nomes, aprendendo a ter medo, a desconfiar, a segurar a bolsa bem perto do corpo (a gente desce na próxima, né?).
Eu sou ainda criança - conto estações, olho lugares, reparo pessoas, imagino histórias.
Uma criança - com mais tamanho e só um pouquinho mais de malícia. A adultescência ainda não me pegou por completo - ao menos não nesse aspecto.
E espero mesmo que nunca pegue. Ver o mundo com os óculos roubados da infância é muito mais interessante.

domingo, 1 de junho de 2008

fim de domingo.

A História de Lily Braun - letra por Chico Buarque

Como num romance
O homem dos meus sonhos
Me apareceu no dancing
Era mais um
Só que num relance
Os seus olhos me chuparam feito um zoom
Ele me comia
Com aqueles olhos de comer fotografia
Eu disse cheese
E de close em close
Fui perdendo a pose e até sorri feliz
E voltou, me ofereceu um drinque
Me chamou de anjo azul
Minha visão foi desde então ficando flou
Como no cinema
Me mandava às vezes uma rosa e um poema
Foco de luz
Eu, feito um gema me desmelingüindo toda ao som do blues
Abusou do scotch
Disse que meu corpo era só dele aquela noite
Eu disse please
Xale do decote, disparei com as faces rubras e febris
E voltou no derradeiro show com dez poemas e um buquê
Eu disse adeus
Já vou com os meus numa turnê
Como amar esposa
Disse ele que agora só me amava como esposa
Não como star
Me amassou as rosas
Me queimou as fotos
Me beijou no altar
Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz
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sexta-feira, 30 de maio de 2008

divagando - sentimentos esfiapados

É assim que acontece a maioria das vezes: as pessoas não percebem que machucam umas as outras. Elas não imaginam o sofrimento que pode estar escondido por trás de um sorriso-piloto-automático, sofrimento que elas próprias causaram.
Seremos realmente sistemas isolados? Meus olhos não comunicam ao outro meus sentimentos? Acho que a maioria de nós simplesmente não compreende os sinais... eles são tão sutis.
É preciso sensibilidade para enxergar além da casca – para ver além da superfície dos sorrisos, risadas, piadas, pilotos-automáticos.
A maioria de nós é em parte autista – só está pronta para tocar a casca da vida, das pessoas, dos sentimentos. A outra parte – líquida, intensa, implícita, extralinguística, sentimentos – essa maioria não consegue encarar nos olhos.
Nem tudo se fala – não é possível espremer a alma de uma pessoa em palavras como se espreme o suco de um limão.
Pensamentos são fiapos de fumaça. Sentimentos também, somente fiapos soltos, subindo e se perdendo na noite doce. E eu não posso fechá-los todos em minhas mãos, transformá-los todos em palavras. Dizer “triste” ou “amor”, é infinitamente mais impessoal do que observar esses sentimentos, extralinguisticamente, subirem em fiapos esbranquiçados no meio da escuridão, exalando toda sua essência: cheiro cinza-azulado de tristeza, cheiro vermelho-rosado de amor.

Eu quero sentir o sabor daquilo que se esconde por trás das coisas intocadas.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Sou-me

Clarice me entende. Ou eu desentendo-me como ela desentede a si-it-mesma.

"Eu sou assombrada pelos meus fantasmas, pelo que é mítico, fantástico e gigantesco: a vida é sobrenatural. E caminho segurando um guarda-chuva aberto sobre a corda tensa. Caminho até o limite do meu sonho grande. Vejo a fúria dos impulsos viscerais: vísceras torturadas me guiam. Não gosto do que acabo de escrever - mas sou obrigada a aceitar o trecho todo porque ele me aconteceu. E respeito muito o que eu me aconteço. Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço. (...) Para onde vou? e a resposta é: vou."
(Clarice Lispector - Água Viva)

No dia em que eu escrever como essa mulher todas minhas águas borbulharão e meu it correrá - um grande, belo, castanho cavalo - por campos livres, destruindo com suas patas tudo que é friamente cimento.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Pirata da Poeira

Uma caixa de Dom Perignon.
Uma caixa velha, desmantelada e empoeirada de Dom Perignon.
Ah, mais! Bem mais!
Um baú do tesouro de papelão.
(e eu pirata desbravadora das estantes esquecidas)
Um sarcófago perdido nos milhões de segundos de uma década,
com pistas de mistérios intímos.
Quebra-cabeça particular de emoções,
mosaico de pedaços de vida.
Caligrafias que se mesclam e a doce dúvida
do seu próprio envolvimento esquecido na história.
Materialização - provas pessoais de histórias contadas.
Revelação - as pistas soltas por milagre se encaixam
(tudo tudo leva ao momento certo de abrí-las, desde as noites sem sono aos programas de TV).
Revelação - e o sorriso custa em deixar o rosto.
Revelação - e os sonhos distantes estiveram sempre muito mais próximos do que poderíamos algum dia sonhar.
Revelação - e a conclusão de que não estou mesmo fadada à normalidade.
Lágrimas emocionadas,
e com reverência quase religiosa recoloco Meu Baú do Tesouro em sua morada.
(e os sonhos estão perto, tão perto, tão perto)

segunda-feira, 19 de maio de 2008

bolinhas.

íntimo - Marcia Maia

sentes?
esse arrepio que disfarço
essa chuva que dentre as pernas
se me brota
umedecendo-me secretamente
esse descompasso bater do meu
coração urdino
jam sessions de desejo
dentro em mim
enquanto olhar sereno riso
nos lábios
todas as tuas histórias escuto
sem que te apresse
sem que me apresse

sentes?

sábado, 17 de maio de 2008

Delirantes pesadelos

Eu havia morrido - não me recordo o motivo - e pessoas queridas estavam em meu funeral. Porém, minha alma estava lá entre eles, e ela tinha existência material. Eu podia ainda conversar, ver, tocar as pessoas, sentí-las e ser sentida, apesar de estar invisível. O primeiro a perceber - e acreditar - em minha presença lá foi o Zé. Ele me ajudou a fazer com que a Dani e o Glauber percebesem também minha presença. Para convencer esse último, acariciei seu rosto, abracei-o, sussurrei em seu ouvido (tutu!) e dei uma mordidinha em sua bochecha. Convenci-o.
Mas o corpo em vida era como uma fôrma de gelo e a alma sozinha era como gelo desenformado: com o tempo derrete, escorre, deixa de existir. Eu já estava derretendo, não conseguia me firmar em pé. Meus três queridos iam me levar para longe do funeral de meu corpo, para que eu pudesse derreter em algum lugar calmo e belo. Abraçando o Zezito para me manter em pé (minha altura já diminuída, semi-derretida, eu apoiava o rosto no meio de sua barriga) queixei-me entre lágrimas de que o Glauber, em sua dor, estava evitando-me nessa versão mole, dissolvente. Bobeira, dizia-me ele. Restava-me já pouco tempo.
Entramos num fusquinha - o Zé dirigindo, a Dan ao seu lado, o Glauber atrás, e eu, já sem poder me sustentar, deitei com a cabeça em suas pernas. Com a força que me restava apertei sua perna e voltei meu rosto para o dele. Ele me fitava diretamente nos olhos - não tenho certeza se podia me ver ou se só sentia minha presença amolecida em seu colo. Partimos em silêncio. Meus queridos me levavam para algum lugar onde houvesse céu azul, grama, montanhas e árvores. Meu amor acariciava lentamente minha cabeça, mas suas carícias afundavam em minha substância já quase líquida. Tentei dizer a ele que continuasse a vida uma vez que eu tivesse ido, mas a cada segundo eu perdia mais percepção do meu corpo, anestesiada, já não podia falar. Sons e imagens misturavam-se. Derreti no banco do fusca.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

E apesar de tudo que escrevo (como poderia ser de outro jeito?) eu sou feliz.

terça-feira, 13 de maio de 2008

eu levo a Lua nas mãos

domingo, 11 de maio de 2008

saudade.


A luz acabou, e como não restasse mais nada a fazer no silêncio da casa, aproveitei o resto de bateria do meu computador para assistir à gravação do espetáculo O Estado das Coisas no Limite do Silêncio; a segunda apresentação desse espetáculo, e a última da qual participei.
Não tenho certeza se era emoção ou se era o frio, mas enquanto assistia, em vários momentos comecei a tremer compulsoriamente. O peso enorme das cenas e palavras se abateu sobre mim, um peso que não percebia em toda sua magnitude lá de trás das coxias, no corre-corre dos bastidores. Tive a visão de um espectador, e percebi o quanto o espetáculo é cruel, o quanto fere, pesa.
Também, em outros momentos, cheguei a chorar, mas então não tão somente pelo peso do espetáculo e suas cenas, mas por saudade. Saudade daquela vivência, daquelas pessoas, daquele momento em minha vida que, mesmo às vésperas dos vestibulares, eu dedicava toda minha alma àquele espetáculo e ao teatro. Sim, aquilo me absorvia por completo. E aliado a isso, também, aquele momento de convivência tão intensa e de pessoas queridas.... aquela amizade forte construída quase diariamente em momentos bons... e também um amor que começava, os carinhos que iam evoluindo, pouco a pouco , intimidade que passou das aulas, dos ensaios, do palco, pra vida.
Ah, mas que saudade das pessoas, saudades dos bastidores, da arrumação, de carregar quilos e quilos de cenário e figurino (quanto figurino!), arrumar todos os mínimos inúmeros detalhes, (quantas correntes pra desenrolar!) saber de tudo que ocorria, e de tantas brincadeiras, diversão de estar junto,e ter naquilo uma felicidade imensa, imensa...
Emoção imensurável, de uma vivência imensurável, saudade imensurável de tudo aquilo.
E a vontade de voltar àquele espetáculo, e a vontade de com a mão puxar da tela cada um que ia aparecendo e abraçar. Vontade de viver tudo aquilo de novo. Aquele é o meu lugar, no palco, nos bastidores, nas coxias.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Tarde


Mas ficou um pedacinho de todo aquele verde dentro da minha mochila.

sábado, 12 de abril de 2008

Essa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi.

Olha, e diz o que vês
das linhas do meu rosto.
Será que elas denunciam
os amores que tive, os sorrisos
que dei, as dores que sofri?
Olha, e diz o que vês
do movimento de minhas mãos.
Será que ele denuncia
a minha inquietação, os devaneios
do meu mundo, os meus traços no papel?
Olha, e diz o que vês
da pedra de meus olhos.
Será que ela diz do meu passado,
do meu agora, do meu querer?
Nota-me assim, porque do mesmo jeito
procuro em tuas linhas os teus antepassads,
e no tremer do canto de teus lábios teus sentimentos,
e no fundo do poço de teus olhos teus desejos,
e nas dobras de tuas roupas teu modo de ser.

Nota, e então deixemos o final aberto para a imaginação.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

hóspede não bem-vinda

Tudo parece bem, mas ela vem.
Com o rosto encoberto por um véu,
difarçando-se na multidão.
Seus passos que não se ouvem
se aproximam. Não noto.
Como espírito,
espreita atrás de meu ombro.
Sua respiração quente passa por minha
nuca.
Perigosamente perto.
Sua mão branca acaricia meu rosto.
As saias finas de seu vestido, ao vento,
envolvem meu corpo.
Não sinto.
Quando dou por mim, ela já se sentou confortavelmete
no meu coração.
Manhosa como um gato é
essa tal de solidão.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Escrever também exorciza demônios.
coragem pra decidir
calma pra digitar.
o suspiro aliviado daquilo que precisava de um novo lar além de um coração enfaixado
(mesmo que um lar feito por códigos binários)

domingo, 9 de março de 2008

...

OK, não costumo participar de correntes na internet, mas essa de blogs é algo mais interessante e eu fui muito educadamente convidada a participar desta brincadeira pela moça do Sentimentalidades Todas ( http://sentimentalidades--todas.blogspot.com/ ). E devo dizer que lhe devia uma já que afanei de seu blog a imagem que uso aqui... e que era tudo pelo que procurava pra uma imagem.
(atualizando algumas coisinhas...)

Então, ao desfio de me revelar (isso é realmente um grande desafio pra mim no sentido mais amplo da palavra!)

Se eu fosse um mês seria... Agosto. Porque é mês de Semana Euclidiana, e só isso já bastaria; mas pra complementar ainda tem um certo friozinho, ventos fortes e muitas folhas caídas pelas calçadas da cidade... ótimas pra se pisar. Ótimo mês para sonhar.

Se eu fosse um dia seria... Sábado- dia de teatro

Se eu fosse um número seria.... 33 (tem gente que entende...)

Se eu fosse um móvel seria.... um puff- porque descobri recentemente que eles são maravilhosos pra se espalhar

Se eu fosse um líquido seria.... Tequila! (hmmmmmm....)

Se eu fosse um pecado seria.... Preguiça (repetindo uma resposta já dada por outra pessoa: que venha o ócio criativo)

Se eu fosse uma pedra seria.... uma pedrinha redonda de beira de rio

Se eu fosse um metal seria... Prata

Se eu fosse uma árvore seria... uma jaboticabeira, das que subia na casa da minha vó pra comer jaboticaba, ou uma mangueira, nas quais a gente amarra balanços de pneu. Ou ainda (eu poderia realmente ser muitas árvores) um ipê amarelo, enorme e imponete, que se erguia sozinho num gramado, perto de um tronco "da coruja" e atrás de uma pequena mata. Fundo de muitas fotos e muitos pique-niques, em Tapiratiba. Infelizmente (e eu chorei quando vi) essa árvore foi queimada. E também um ipê por alguns motivos a mais: Ipê é também a representação de amor.

Se eu fosse uma fruta seria.... uma Amora! (por causa de uma certa quitandinha feita numa semana euclidiana...saudades do abacaxi, da cereja e da(o) banana)

Se eu fosse uma flor seria... uma margarida.... dessas que nascem em jardins que crescem sozinhos

Se eu fose um clima seria... friozinho de inverno brasileiro

Se eu fosse um instrumento musical seria... Piano. Porque toca as músicas que me embalam.

Se eu fosse um elemento seria.... ar. (porque invejo sua leveza, porque sonho em flutuar)

Se eu fosse uma cor seria.... Roxo. simplesmente

Se eu fosse um animal seria... já sou um animal! Homo sapiens sapiens

Se eu fosse um som seria.... o som daqueles "sinos" (tubos cilíndricos que se põe no vento para se chocarem e fazer barulho e que eu não sei o nome ao certo- só que daqueles feitos de bambu)

Se eu fosse uma letra de música seria... (difícil!) Tempo Perdido- Legião Urbana, é.... acho que poderia ser

Se eu fosse uma canção seria... bom, seria mais uma melodia, de Yann Tiersen para Amélie Poulain

Se eu fosse um estilo de música seria... Rock, (dentro dele todos os tipo) porque é variado: vai desde momentos românticos, filosóficos, pensadores, até momentos de raiva, revolta, etc...

Se eu fosse um perfume seria.... Amor Amor . porque tem cheiro de frutas. doce, alegre e envolvente

Se eu fosse um sentimento seria.... um mix de felicidade e melancolia

Se eu fosse um livro seria.... Água-Viva, de Clarice Lispector. Porque parece que ela leu meu interior e depois escreveu o livro.

Se eu fosse uma comida seria.... não sei... todas! (exceto escarola refogada e jiló)

Se eu fosse um lugar (cidade) seria... Monte Verde. Não conheço, nunca fui lá, mas quando era criança vi uma matéria numa revista sobre essa cidade, na divisa entre SP e RJ, numa serra, de colonização alemã, pequenininha, cheia de morros cheios de verde, com chalés típicos onde se faz Struddel e artesanato, e com trilhas e cachoeiras. (talvez a utopia e idealização sejam melhores que a realidade)

Se eu fosse um gosto seria... agridoce. (nunca os extremos, sempre os ambíguos)

Se eu fosse um cheiro seria.... o cheiro de um envelope, que mistura uma carta queimada nas pontas, um papel de seda vermelho, uma borboleta seca e uma imensa saudade. Mas também o cheiro de folhas secas.

Se eu fosse uma palavra seria.... Busca

Se eu fosse um verbo seria... Sentir

Se eu fosse um objeto seria.... uma vitrola - sim, daquelas que toca bolachões de vinil

Se eu fosse uma roupa seria... um vestido, preto, curto, larguinho, já meio surrado e com algumas bolinhas brancas... exatamente como o que está no cabide dentro do meu guada-roupa

Se eu fosse uma parte do corpo seria.... um pé, bem apertado, dentro de uma sapatilha de ponta.... que depois andaria descalço na terra

Se eu fosse uma exprssão seria.... Gestos

Se eu fosse um desenho seria.... a Mafalda!

Se eu fosse um filme seria.... O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

Se eu fosse uma forma seria.... um Attitude (para os que não conhecem ballet, ou não sabem qual é a forma de um attitude:
http://www.fotolog.com/aniushkita/39732940 )

Se eu fosse uma estação seria.... Outono

Se eu fosse uma frase seria... "Escrevo por profundamente querer falar, embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio." (Clarice Lispector em Água Viva)





.... e agora como me foi passado, passo o desafio às pessoas seguintes:

ao Eduardo, amigo blogueiro de tempos, do http://dudapih2.blogspot.com/

à Bruna, menina-Kiwi, do http://restos-e-sobras.blogspot.com/

à Dani, minha irmã-gêmea, se ela ainda tiver tempo pra mexer no seu blog: http://mypurpleumbrella.blogspot.com/

ao Glauber, Tutu mais tutu do mundo, do http://oseriopalhaco.blig.ig.com.br/


à Maria Fernanda, que anda se tornando comentadora aqui, do http://bonequinhadeseda.blogspot.com/

ao Sonega, querido amigo sumido, do
http://ourfuckingmechanicalworld.blogspot.com/

sexta-feira, 7 de março de 2008

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Transcrição


palavras soltas num guardanapo
pelo puro prazer de escrever.
uma porta entreaberta, lembranças
divertidas (talvez indecentes...)
saudades de abraços, de pele, de
beijos, de risos compartilhados.
qualquer papel pode ser meu confidente
fiel. até mesmo um guardanapo.
echapés e uma sapatilha estudante.
felicidade pessoal e intransferível; realização
amor...? vários tipos dele.
desejo...? é, pode ser.
carência...? talvez


piano
sonho . . . em transe
retrato: amiga de canetas, papel,
palavras, cafés, nomes estranhos
em francês.
constantemente visitada por
sorrisos e lágrimas.
A conta por favor.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

É dia de feira

O Sol é quente; verão de país tropical. O calor inunda a rua tomada em que circula uma pequena multidão. A não ser que você não suporte calor humano (muito mesmo) uma pequena calamidade e barulheira, irá gostar. Pra mim é uma diversão!
As barraquinhas se espremem lado a lado, lonas listradinhas coloridas servem de cobertura. Bacias de plástico são cheias dos mais diversos produtos... e passando-se entre duas barracas de frutas o cheiro doce de pêssegos, mangas, laranjas e muitas mais invade-me as narinas e entorpece levemente os sentidos.
-Olha, a laranja tá acabando, tá acabando o preço abaixou de novo! Aproveita, dona!
-Moça bonita, pode chegar, pode chegar que a fruta tá doce, o abacaxi tá um mel, abacaxi de um real! Abacaxi de um real!
-Olha o mamão, só um real a bacia!

"Acerooola, acerooooola. Acerola cura resfriado, gripe, é bom pra suco, todo mundo gosta. Olha a acerooooooola." Assim apregoava uma negra de longas tranças com a voz divertida e estridente... feito uma vitrola que toca só uma música.
-Pô, pára de falar, aí! A feira já tá acabando! (os feirantes ao redor comentando. aos gritos, claro)
-Cala a boca, tu é chata, aí!
-Pô essa mulher é muito chata, aí!
-Paro não! O povo é gosta que eu falo. Aí, minhas acerola já tão acabando! Acerooooooooola! Aceroooola! Cura resfriado e tá acabando!
-Pô, quanto custa tuas acerola, aí? eu compro tudo só pra tu calar a boca!

Passa-se sorrindo.

Nas bancas que vendem ervas, chás, folhas diversas, é delicioso o cheiro de verde. Lembra a casa da avó e seus infinitos chás. Na Barraca de grãos, é quase irresistível enfiar a mão nos sacos, sentindo a massagem suave que cada diferente grão faz na pele. À la Amélie Poulain.

Evite as bancas de carnes e peixes.... nada é perfeito.

Ah, parada obrigatória é na barraca de pastel. Pastelaria de chinês nenhum bate o pastel de feira, de preferência acompanhado de um belo copo de caldo de cana! Gosto de infância, de pedir óstia não consagrada pro padre depois da missa, de feira de domingo, pastel de queijo e mãos dadas com a mãe.

Feira é povo, não o que se vê na novela ou na TV, é povo de verdade. Feira tem vida, tem cor, tem voz e tem cheiro. Tem graça e desgraça, daqueles que a percorrem, olhos no chão, à procura dos restos para levar pra casa.
Feira é diversão!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Borboletas Verdes

Um ruído de repente me tira a atenção. Uma cortina voando à brisa noturna faz o pensamento voar.
Uma triste retrospectiva que se lê faz os bons momentos parecerem ainda mais doces.
Sorri, menina. Sorri e canta. Não tem mais por que chorar.
Aprende, menina. Aprende também a divagar, sonhar e poetar na cidade grande. Barulho de trânsito também pode ser melodia. Não deixa a dureza do concreto te invadir também, menina.
Repara! Ali do lado da pixação no prédio pousou uma borboleta!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Maravilhas do Mundo

O discurso final de O Grande Ditador, filme escrito dirigido e atuado por Chaplin, lançado em 15 de outubro de 1940 (se pensarmos continua extremamente atual, só imagine colocar a palavra internet onde se lê rádio!) :


Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar a todos - se possível -, judeus, gentios... negros... brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós.Neste mesmo instante a minha voz chega a milhos de pessoas pelo mundo afora...milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura os seres humanos e encarcera os inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis!” A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam a vossa vida... que ditam os vossos atos, as vossas idéias os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como a um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquinas! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!
Soldados! Não batalheis pela escravidão!Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou de um grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós o povo tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia -, usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê fruto à mocidade e segurança á velhice.
È pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e á prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzem à ventura em todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês Hannah?! O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz a esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Água viva

Esquece-me.
Eu não fui feita para ser lembrada.
Eu devo ser, para ti, como a chuva:
É maravihoso tomar chuva, sentir os pingos no corpo, abrir a boca para o céu a fim de abocanhar gotas geladas.
Mas depois que a chuva se vai, fica-se com frio.
E se não se seca e toma-se um banho quente, fica-se doente.

Ser como a chuva é doloroso.
Depois que ela cessa e o Sol a evapora, não sobram pistas de sua passagem.
Mas aprendi (ou estou aprendendo) a me conformar.
Com meu estado líquido, cainte, efêmero.
Minha alma em tempestade vai (tem que!) aprender a se aceitar.

Esquece-me.
Chuva não é pra ser eterna. Chuva passa.
Tome um banho quente. Ponha roupas limpas. Espere, que o Sol já vem me evaporar.

Eu chovo. Verbo personalíssimo.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Almofada cor-de-rosa

Nós temos fragilidades. Teremo-as sempre, mesmo que por algum tempo esquecidas. Alguma hora alguma coisa vem es acordam-nas. E a gente toma um tapa na cara: a fragilidade continua ali a nos atormentar, não sumiu como julgávamos. E aquelas pessoas que nos ajudaram a levantar da primeira vez , não, não estão mais lá para dar a mão.
...
E tu jurastes! Jurastes pra ti mesmo que não contarias para mais ninguém; que aquele era o único que podia te ajudar quando essa dor viesse, que podia conhecer teu segredo mais íntimo, teu pesadelo mais sombrio. E ele não está mais. E tu jurastes. Jurastes!
agora estás sozinho. Não há mais a quem recorrer que conheça-te tanto, que entenda-te, que possa apoiar-te sem se assobrar com a bagagem que trazes.
Roubaram-te as muletas antes que pudesses afirmar as pernas e disseram-te: anda!
Se não conseguires andar, que mais te resta?

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Felina

Como um gato
num muro
sem sono na noite
sentindo o vento, enfrentando-o
como se enfrenta onda forte do mar.
A cidade dormindo
um pingo ou outro caindo
e eu encarapitada, invisível para o mundo
ao som de Led Zeppelin e Legião.
Um estranho aconchego que encontro
no escuro, no vento,
na solidão.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

The smell of butterflys

Apertada duramente, estou. Amarrada a tão doces e agora cruéis lembranças , eternamente as carrego comigo, em um caleidoscópio que oscila sempre entre o sorriso saudoso, agodão doce, e o amargo.
Este emaranhado de galhos que trago às costas tem ramos já secos, sem folhas verdes, sem frutos, mas que não consigo quebrar. As folhas secas trazem lembranças estampadas e se recusam a cair.
Queria eu seguir em frente mantendo esse pedaço de galho seco às costas, lembrando-me dele só quando me voltasse a contemplar as cenas gravadas e suas folhas, e um dia, semanas, meses depois da última olhadela, surpreender ( e surpreender-me) uma flor a desbrochar, e mergulhar novamente em seu encanto de branco, delicadas asas, seu perfume doce, de cor-de-rosa claro, a inundar-me toda.
Mas continuo, e não preciso nem mesmo voltar-me e olhar as folhas secas para ver suas imagens - elas estão gravadas em minhas retinas, e a cada segundo do relógio um fiapo de seu odor chega às minhas narinas, odor de folhas secas- a princípio bom, verde, mas logo em seguida o cheiro de verde em decomposição, não mais vivo, partida. E esta demora, ou incapacidade, da flor em florescer, pesa. Dobram-se-me os joelhos sob o peso dessa inexorável esperança sem membros.
Já não caminho por meus próprios músculos. Além da rotina, tudo que me move é só a leve brisa que passa pelos outros galhos da árvore, que por instantes põe-me frente aos olhos as outras folhas verdes ainda existentes, com cheiro de verde, de fresco; instantes em que estendo alguns dedos à frente, antes que volte a mim o melancólico cheiro das folhas secas.
Eu sou apenas o sussurro de minhas folhas e galhos.

Experimente cheirar : folhas verdes, cheira quase como pinheiro de natal; um saco cheio de folhas secas ; flores de perfume ligeiramente adocicado . Os cheiros têm significados que se explicam por si mesmos.




Apertada duramente, estou. Amarrada a tão doces e agora cruéis lembranças , eternamente as carrego comigo, em um caleidoscópio que oscila sempre entre o sorriso saudoso, agodão doce, e o amargo.
Este emaranhado de galhos que trago às costas tem ramos já secos, sem folhas verdes, sem frutos, mas que não consigo quebrar. As folhas secas trazem lembranças estampadas e se recusam a cair. Queria eu seguir em frente mantendo esse pedaço de galho seco às costas, lembrando-me dele só quando me voltasse a contemplar as cenas gravadas e suas folhas, e um dia, semanas, meses depois da última olhadela, surpreender ( e surpreender-me) uma flor a desbrochar, e mergulhar novamente em seu encanto de branco, delicadas asas, seu perfume doce, de cor-de-rosa claro, a inundar-me toda.
Mas continuo, e não preciso nem mesmo voltar-me e olhar as folhas secas para ver suas imagens - elas estão gravadas em minhas retinas, e a cada segundo do relógio um fiapo de seu odor chega às minhas narinas, odor de folhas secas- a princípio bom, verde, mas logo em seguida o cheiro de verde em decomposição, não mais vivo, partida. E esta demora, ou incapacidade, da flor em florescer, pesa. Dobram-se-me os joelhos sob o peso dessa inexorável esperança sem membros.
Já não caminho por meus próprios músculos. Além da rotina, tudo que me move é só a leve brisa que passa pelos outros galhos da árvore, que por instantes põe-me frente aos olhos as outras folhas verdes ainda existentes, com cheiro de verde, de fresco; instantes em que estendo alguns dedos à frente, antes que volte a mim o melancólico cheiro das folhas secas. Eu sou apenas o sussurro de minhas folhas e galhos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Margaridas

Colhi pequenas flores cor de lilás no canteiro em frente à minha casa na hora de sair. Depositei-as cuidadosamente num triste jardim, de vista tão bela. Repousa lá, amiga, frente à vista que amava, das trilhas que gostava de fazer, de sua paixão por cachoeiras. Repousa lá, amiga, 18 anos apenas, eternamente num jardim frente a belos morros.
Mais à frente no caminho, numa simples casa de roça na beira da estrada, de uma senhora gorducha e bonachona, colhi margaridas e florzinhas brancas que se chamam boa noite. Quando era criança, no dia de finados nós colhíamos margaridas e outras flores que cresciam na rampa abandonada da garagem do quintal da minha avó, e dávamos aos mais velhos para levarem ao cemitério.
Hoje ninguém mais leva flores apanhadas no quintal de casa ao cemitério. Levam vasos. Envoltos em plástico e ainda por cima com o cartãozinho do cemitério! E eles deixam no pára-brisas dos carros estacionados panfletos anunciando seus serviços e divulgando o sorteio de um jazigo (!) completamente quitado com três gavetas. Puro comércio.
Eu colhi minhas singelas margaridas, que vieram junto com insetos pequeninos, e as depositei junto daquela cuja casa me ensinou a amar as flores que nascem por si mesmas.
Acho que sou profundamente nostálgica em certos assuntos. As flores colhidas à beira do caminho hoje, levam consigo carinho e saudades. E minha imensa nostalgia.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Aulinha de química para os que sofrem calados

De repente, sem a voz se levantar, algo muito grande muda de figura. Não cai e quebra, cristal em mil pedaços. É uma solução no laboratório de química, que quando adicionada uma gotinha muda silenciosa e asustadoramente rápido de cor, do rosa sonhador para o azul cinza chumbo , ou então que por ter sido deixado aberto o frasco, foi-se evaporando (que solução extremamente volátil essa... pobre dos que esquecem a tampa do frasco aberta) .
A tristeza é silenciosa e muda como todo o resto. Muda a boca. Muda a boneca.
Ou talvez (ainda uma metáfora a mais) é um frasco de perfume deixado ao sol. O maravilhoso perfume foi perdendo seu cheiro dentro do belo frasco.... e só da noite pro dia é que se deu conta disso.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Sorvete de Goiaba

Há alguns tombos que nos desorientam por completo, há situações pelas quais se passa que não se desja ao pior inimigo, que não se imagina ser possível existir, que não se imagina ser possível com você. Mas passam. Às vezes uma pequena incômoda imagem ainda quer vir à tona, mas deve-se espantá-la como se espanta uma mosca. E ela passa. E o que fica é a força que vem do amor, é a doçura silenciosa de, mesmo não tão junto, ter pessoas queridas, é a imensa alegria (apesar de melancólica) de ter planos e sonhos e esperanças tão grandes que não nos deixam cair. É pisar, quase que não pisando, no chão, quase que flutuando, sobre folhas secas. Pisar nos astros distraidamente. Saborear a imensa doçura da vida, da paz, e reconhecer que se tem muito, mesmo que às vezes pareça tão pouco, reconhecer que se tem muito tendo a paz que inexiste naquelas situações que nos desorientam. Reconhecer que mesmo triste, a vida é doce, e não é triste. Você tem motivos para sorrir.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Lágrimas vermelhas como o céu, como a Lua, empapam o esparadrapo que estrangula o peito.

Lágrimas silenciosas espremidas, num ônibus lotado de dorminhocos, no calor caótico do trânsito da capital.
Silenciosamente solitárias.
Água salgada ocular para tentar limpar imagens da memória.
Memórias não vividas de abraços apertados a tentar acalmar a dor de um peito enfaixado, justamente enfaixado, costurado com grossas fitas a apertar as costelas.
A dor psíquica quase se torna física.
Estrelas, céu, mar, pedras, passos com pressa, lágrimas, risadas, sonhos, devaneio vão, vã tentativa de esquecer a verdade.
À beira da janela tristes folhas de eucalipto balançam à brisa fétida do trânsito da capital.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Noite em Família

O choro inconsolável da filha tirou-a do seu sono para observá-la desfazer-se em lágrimas. Frente à resposta fraca e molhada da menina de "nada" à sua pergunta do que houvera, acomodou-se dura no batente da porta, e com dura expressão ali continuou, sem dizer palavra.
Sentou-se à mesa, comeu sozinha, assistiu passivelmente ao jornal e à novela, ignorando os ruídos de resto de choro vindos do quarto da menina, que se jogara na cama de roupa e de tênis, e após muitas lágrimas abafadas adormecera, dando silêncio e paz para a mãe terminar sua novela e entregar-se também às densas ondas de sono.

domingo, 16 de setembro de 2007

Vácuo

No aconchego de metal da minha cama vazia, meu quarto imerso em sombras, músicas silenciosas que só eu ouço abafam dos ouvidos o resto das vozes do mundo. Estou deitada, encolhida em uma bolha de vácuo cheia de silêncio e música. O deserto é aqui, e o ar machuca os pulmões assim como água gelada não mata a sede. O sangue que sai da caneta macula a pureza cândida da folha virgem. A paz do isolamento confunde as imagens de felicidade ou tristeza. É ter paz no caos. É ser feliz com os olhos inchados de choro. As distâncias são quilométricas, são de semanas, meses, anos. São distâncias de silêncio e palavras perdidas, de saudades e de falta, de abraços queridos, de beijos desejados, de toques ansiados, de planos e sonhos traçados, de sonhos que se compões paisagem a paisagem na sequência de uma jenela de ônibus. Minha felicidade é feita de silêncio, de sonhos, de lágrimas, de música.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Mas o Sol insistiu em nascer de manhã... em me tirar da cama, me empurrar pra vida, e sem dar importância para meus olhos inchados me disse assim: " The show must go on! "

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Indagações

Alguma vez você já teve vontade de que te enrolassem em panos quentes, como se enrola um bebê? Já sentiu vontade de ficar pequenininha, num silêncio profundo, como dentro de um ovo?
Já...?

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Ao chão

De repente, então, um anjo cai ao solo, com as asas quebradas.
No pedregulho ajoelhado, traz a pele esfolada,
curvado pra frente, todo seu corpo treme, com dificuldade de respirar.
O coração ele sente bater doloridamente, não no peito, mas nas costas, e a cabeça roda
roda
O rosto, nada angelical, se cobre de lágrimas, inchado, vermelho e quente.
Levado por impulso tenta falar, mas nada inteligível se desprende de sua língua em meio à saliva excessiva.
Nas mãos trêmulas segura pedacinhos estilhaçados dalguma coisa que ele pensou talvez ser um brinquedo, ou de borracha. Tenta em vão montar o quebra-cabeças em suas mãos, mas cacos estão perdidos.
Tenta em vão remontar os quadros dos fatos, mas sua cabeça já os embaralhou em meio a tantas quadros que ele gostaria de esquecer. Parece agora, muito mais um zumbi.

Um pobre anjo jaz no chão, despedaçado, pagando caro pelos erros. Pagando caro pelo seu maior erro: não perceber, por muito grande e valioso tempo, que estava errando.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Alada, lunar

Pés descalços e luzes apagadas na casa vazia.
Da janela entreaberta vêm os ruídos urbanos
a se misturar com a música;
vem o assobio do vento gelado
e vem a única luz, branca, lunar
a iluminar precariamente a cozinha.
E se este cândido disco se esconde entre as nuvens
e a penumbra a invade,
não traz luz, não - deixa-a assim.
Então quem sabe um anjo
que passe e veja de cima
naquela penumbra
aquela menina
no seu triste (será?)
momento de paz
espalhe pro resto dos seres alados
que uma pequena
tão tenra e terrena
traz nas costas
transparentes, etéreas asas,
mas não se deu conta
nem pode voar.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Coração amarelo

Eu trago no peito a eterna tristeza
daqueles que sorriem ao ver uma bela árvore,
daqueles que observam as flores ao seu caminho,
daqueles que lêem versos.
Trago comigo a eterna tristeza
daqueles que sorriem ao fitar um rosto de criança,
daqueles que se deixam levar por uma melodia,
daqueles que morrem de rir.
Ao mesmo tempo que o sorriso aparece
as lágrimas estão a querer saltar,
sem motivo. Só porque trago
no peito essa eterna tristeza
que vai furando devagarinho,
ponta de lápis sendo girada no queijo
esburacado do meu coração.

domingo, 8 de julho de 2007

O pote que pariu

" (...) Agora, de volta, achamos o pote tibi emprenhado. A barriga do pote fosse agora um canteiro arrumado. Estava bom de criar. Foi que veio dái um passarinho e cagou na barriga do pote uma semente de roseira. As chuvas e os ventos deram à grvidez do pote forças de parir. E o pote pariu rosas. E esplendorado de amor ficou o pote! De amor, de poesias e de rosas. "
(Manoel de Barros)

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Cana queimada, melancolia

O vento gelado traz o inconfundível cheiro de cana queimada, que impregna agora todas as noites depois que os canaviais entraram em cima das outras terras na corrida pelo progresso. Puxo mais para perto o casaco. A Lua, amarela e achatada como uma bola murcha, faz com que eu me pregue no chão. O silêncio de uma cidade adormecida cheira a cinzas. Os olhos ardem, na garganta faz-se um nó. Os olhos se fecham e a melodia leve e triste de um piano se materializa em meus ouvidos. O coração se aperta, se asfixia e se divide.
Alegrias e tristezas andam sempre de mãos dadas.
Uma lágrima escorre pelo rosto ardente.
E o cheiro de cana queimada me envolve a ponto de me levar a um estado de transe.
Revejo cenas confusas, pele, boca, pele, ônibus, pele, salto preto, pele, estátua, pele, farelos de borracha, pele, remédio, pele com pele. Uma bailarina gira infinitamente em meio à névoa asfixiante.
Os lábios se abrem em uma palavra inexistente.
E ao longe, em meio a tanta fumaça, um piano que só eu ouço não pára nunca sua valsa triste.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

enrole a língua, beba ainda quente

O silêncio às vezes conforta.
Mas às vezes ele se aproxima
feito lança comprida e pontiaguda,
fria e inflexível, a penetrar-me
a carne lentamente, exibindo,
arrogante, um brilho frio de metal,
carregado de intolerância e superioridade tola.
Machuca. Começa a querer sangrar.
Sem reclamações se segue.
É silêncio.

terça-feira, 12 de junho de 2007

No silêncio de um amor

Te amo - português
Lubim ta - eslovaco
Ha eh bak - turco
Ya vas liubliu - russo
Ngiyakuthanda - zulu
Je t'aime - francês
I love you - inglês
Te quiero - espanhol
Wo le ni - chinês
Aishiteru - japonês
Ich liebe dich - alemão
Ya te volim - croata
Tora dost daram - persa
Sakan te volim - macedônio
Gramo te bue - lituano

Te amo pode ser dito em várias línguas. Nenhuma porém é mais sincera que a língua universal do amor. No silêncio, olho no olho, mãos unidas, corações acelerados o amor se mostra em toda sua força e beleza.


Dedicado ao garoto que me fez descobrir tudo isso.

domingo, 3 de junho de 2007

eu quero....

Um dia quero uma casa e uma vida, do jeito que quero.. do jeito que espero
Andar descalça na grama molhada do jardim, comer fruta na mão, ter uma "banheira da vovó" pra tomar banhos longos, quentes e bem cheirosos, ter uma estante abarrotada de livros, deitar numa rede colorida para lê-los, e também pra aproveitar a sesta.
Ter vasinhos de flores nas janelas, comer brigadeiro na panela com colher-de-pau, se enfiar debaixo de um edredon pra assistir filme nas tardes frias de chuva, sentar no jardim pra sentir o aroma de dama-da-noite nas noites quentes de luar, e ali ficar por horas, aproveitando uma boa conversa.
Comer pastel de queijo na feira de domingo, fazer bolo, se lambuzar com cobertura, tomar banho de mangueira e banho de chuva, fazer guerra de travesseiro, comer bolinho-de-chuva, café com leite bem quente. Sentar em cima do muro, olhar a cidade pela janela.
Viver

quinta-feira, 3 de maio de 2007

A menina da saia branca

Desabafo estrangulado
Gritaria mental
Cansaço
Imagina-se tudo o que se quer falar
e nada se diz.
Lágrimas espremidas,
de crocodilo,
fazem brilhar meus olhos vermelhos....

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Renata

Uma amiga hoje foi viajar. Embarcou numa barca em formato de cisne e partiu em direção oeste. Percorreu intermináveis mares até a terra das praias brancas, e mais ao longe, sobre uma verde colina, encontrou a cidade em que se instalou. Cândida cidade onde passará todo o resto do tempo do mundo. Agora ela tem todo o tempo do mundo.

Com essa fantástica imagem me consolo da dor de perder uma amiga. Andando pela cidade, mês pés me levariam a qualquer lugar, menos de volta pra casa. As tristes imagens eu agora quero apagar, pois tão jovem, deitada entre flores que não cessavam de chegar, no seu cândido leito final (ó, cândido leito funeral dos que se vão ainda puros), ela repousava. Uma delicada roupa em cor-de-rosa, um terço de pedrinhas entre as pálidas mãos, a face sem a alegria que costumava estampar, os olhos cerrados, eternamente cerrados.
Fui andando sem rumo certo, vendo o Sol se esconder atrás dos morros, pintando o céu de tons rosados, vendo o azul escuro ir tomando conta de tudo pouco a pouco, gradualmente, e estrelas irem saindo, até que o céu inteiro estava negro e salpicado de estrelas.
Nas noites sem lua as estrelas brilham ainda mais. Infinitas.

“Se o mundo é mesmo parecido como que vejo prefiro acreditar no mundo do meu jeito. (...) Então de hoje em diante todo dia vai ser o dia mais importante.”

Vai com os anjos. Vai em paz....

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Comunicado

Olá! Há algum tempo tive vontade de postar diferentes tipos de textos, mas esse blog é muito "meu" para postar coisas diferentes... e sinceramente gosto dele assim. Então estou inaugurando um novo blog, Arquivos da Caxola , onde publicarei outros tipos de textos (narrações, dissertações..) e ireri mantendo os dois blogs paralelamente. Visitem e dêem sua opinião!

quarta-feira, 28 de março de 2007

Bailarina Urbana

À noite
no barulhento silêncio da cidade,
me perco vendo as estrelas.
Quem dera eu
mergulhar
nessa imensidão escura;
entre as estrelas dançando,
fazendo piruetas, distraída,
sobre os astros;
ao ritmo dos sons urbanos.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Encadeada

Medo
Atrás de cada esquina pode estar um bandido, um menino,
pés no chão, canivete.
Corra! Não espere escurecer! Pega a chave,
tranca a porta, cadeado.
Se feche: entre quatro paredes cuide da sua casa,
sua filha, sua imagem, sua moral.
Chore! Chore!
Você se prende, se isola e depois reclama solidão.

Não! Me larga!
Abro a porta e o cadeado- saio na rua
roubo uma flor
sento na praça
na calçada
deito no chão no concerto
danço no meio do povo
e dou risada.
Deixa eu abrir minhas asas!
O medo que sinto não me acorrenta.
Meu coração quer voar.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Brutal

Pelos dias, coisas que vejo, histórias que escuto, me espanto.
Raiva, incredulidade, desesperança: vejo mais e mais que o homem é ridículo, estúpido, bruto. Uma infinidade de defeitos que se irradiam e estragam tudo o mais a sua volta.
Me revolto, me entristeço.
É como se eu pudesse ver, no longo corredor as duas crianças loirinhas encolhidas à porta, chorando por ouvir os macabros sons que vinham do quarto.
É como e eu pudesse ver a garotinha sair correndo da sala para o quarto e fingir que estava dormindo ao ouvir o som do carro de seu pai chegando do trabalho.
É como se eu pudesse ver tudo aquilo que eu não queria que existisse.
Me assustei com isso quando descobri
Que é algo mais comum do que eu imaginava
Mais horrível do que eu podia me lembrar e
Que está mais próximo de mim do que eu podia querer.

sexta-feira, 9 de março de 2007

Turbulência

Me perdi em meus caminhos
as mãos e o corpo todo tremia
o rosto vermelho e quente
a respiração arquejante e quebrada.
Me mesclei dentro de mim
a vontade de quebrar tudo e a consiência de não fazê-lo
discutindo em minha cabeça já tão quente.
A vontade louca de sair correndo batia de frente com o bom senso
(maldito bom senso!).
Por fim deixei que as leis da inércia vencessem
e o bom senso dissesse "muito bem"
e a parte de mim que gritava
agora amarga letargicamente o brilho frio da tela do computador.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Sobre homens e mulheres e suas almas em comum

É dia das mulheres, e se ouve falar da causa feminista
vêem-se caminhadas, protestos, das diferenças
.... mas eu desconfio que homens e mulheres são bem mais parecidos do que se alega
Não, não que sejam iguais.
Mas no fundo, no fundo são almas humanas
que querem felicidade, amor, que passam por bons e maus momentos,
que se apaixonam, que sofrem.
O que vejo por aí é que muitos (homens e mulheres) não querem revelar suas almas, e se escondem atrás de mitos (que homem não chora, que mulher chora por qualquer coisinha...) e acabam se distanciando.
Mas o que me encanta é ver os que saem dos mitos e se mostram, e as distâncias diminuem, e a gente consegue compreender mais e ser mais compreendidas.
Homens vão sempre ser homens. E as diferenças sempre vão existir.
Mas no fundo, bem lá no fundo, a essência da alma é assexuada.
Lá somos iguais.
E lá, tudo o que mais se quer é amor.

sábado, 3 de março de 2007

Se esse palco falasse....

O negro chão que piso, amplo e quente, é como pisar em areia de praia, em terra vermelha de barro: me sinto viva. De compridas e negras cortinas ladeado: refúgio, esonderijo. Quantas coisas podem sair por detrás dessas coxias, meu Deus? Num quadrado de 10 por 10 metros, cabe muito mais que só 100m quadrados, cabe um infinito. Não aguentava mais de saudades, saí correndo e me joguei de volta e fiquei deitada me interando desse palco. E dele não queria mais sair.
Dizem que para o artista o palco é um lugar sagrado. É mesmo. Mas para mim, esse palco em especial é também minha casa. Antes mesmo de ele ser construído eu já estava ali. Vi ele ser erguido e não teve mês que se passou em que eu ficasse sem ele. Nesse palco subo e deixo pra trás todo mal ou preocupação, e quando desço volto renovada, com vontade de aprender, descobrir, pesquisar, viver a arte.
Simplesmente: Eu Amo a Fábrica de Expressão!!!!