sábado, 20 de setembro de 2008

úmido

é chuva, é cinza, é um sorriso ausente de meus lábios
até forço, mas ele não quer vir não

é saudade, são sonhos
sonhos de futuro, sonhos que embalam,
mas que também potencializam a saudade

é solidão, solidão...
e essa distância que corta, aperta.
afogo tudo no efeito narcótico dos sonhos, da evasão, sair de mim
(e talvez algum àlcool, passos de danças loucas...)

é bom até
conseguir por um momento
loucamente acreditar que os beijos jogados pela janela vão atingir seu destino
(então uma força vinda sabe-se lá de onde me faz realmente levantar, abrir a janela e soprar beijos para o ar da noite)
e essas lágrimas que não sei por que vêm
de onde vêm

só espero, loucamente também, ouvir as batidas dos abraços na minha janela

(onde estão? onde estão?)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Casa

Faz calor. Uns trinta graus. Sol. O tempo é seco. (umidade do ar cerca de 17% - mais de 140 dias sem chovar)
Quase cinco da tarde - o céu é claro, azul quase branco sobre o verde de um morro de um lado. Os pés de Macaúba se destacam entre as outras árvores. Do outro lado o Sol se esconde atrás de nuvens brancas, deixando os raios dourados passarem por suas bordas. A luz me deixa ver apenas o contorno negro da copa redonda e cheia de galhos retorcidos do grande pé de Espatódia.
Não vejo as cinzas agora, mas sei muito bem que a cana queimada me cerca por todos os lados. De vinte em vinte minutos a boca fica seca. Quero água.
Abri a porta da sala para deixar entrar uma brisa, mas o ar está parado. Somente o barulho dos carros que passam voando na rodovia.

Noite passada fiquei bastante tempo do lado de fora. Vendo a Lua e ouvindo os sons... do vento na copa das árvores, das folhas e ciscos sendo carregados pelo chão, das cigarras, da rodovia ao longe...

Minha vontade agora é deitar no chão da varanda - chão de azulejos brancos recém lavados, refrescar o corpo semi-nu.

Eu adoro esse lugar!

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

(in) Decisões

sou uma eterna busca
e um constante sentir

busco nos meus gostos um caminho . . .



pra ver se me encontro
________________________________

"Que sei eu do que serei, eu que não sei quem sou?"
(Pessoa - Tabacaria)

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Diário de viagem

Conhecer é mais que ver e visitar.
É conversar, perguntar, ler, ir...
e entao sim... conhecer.

domingo, 13 de julho de 2008

agora tenho certeza: nuvens sao mesmo feitas de algodao!
Um algodao muito bom pra se tirar uma soneca deve ser!

...Acima das nuvens o tempo é sempre bom....


(desculpem a falta de "tios" nos A´s. teclado hermano é diferente...)

domingo, 29 de junho de 2008

Nota. Vidas ressecadas, sonhos tão universais. Percebe bem a beleza duma canção de lavadeira.


O Cordel Estradeiro
(Letra e música: Lirinha)

A bença Manoel Chudu
O meu cordel estradeiro
Vem lhe pedir permissão
Pra se tornar verdadeiro
Pra se tornar mensageiro
Da força do teu trovão
E as asas da tanajura
Fazer voar o sertão

Meu moxotó coroado
De xiquexique e facheiro
Onde a cascavel cochila
Na boca do cangaceiro
Eu também sou cangaceiro
E o meu cordel estradeiro
É cascavel poderosa
É chuva que cai maneira
Aguando a terra quente
Erguendo um véu de poeira
Deixando a tarde cheirosa
É planta que cobre o chão
Na primeira trovoada
A noite que desce fria
Depois da tarde molhada

É seca desesperada
Rasgando o bucho do chão

É inverno e é verão

É canção de lavadeira
Peixeira de Lampião
As luzes do vaga-lume
Alpendre de casarão
A cuia do velho cego
Terreiro de amarração
O ramo da rezadeira
O banzo de fim de feira
Janela de caminhão

Vocês que estão no palácio
Venham ouvir meu pobre pinho
Não tem o cheiro do vinho
Das uvas frescas do Lácio
Mas tem a cor de Inácio
Da serra da Catingueira
Um cantador de primeira
Que nunca foi numa escola

Pois meu verso é feito a foice
Do cassaco cortar cana
Sendo de cima pra baixo
tanto corta como espana.
Sendo de baixo pra cima
voa do cabo e se dana.

domingo, 22 de junho de 2008

Desabafo. confuso, pode ser...

Já perdi as contas de quantas pessoas me disseram o quanto eu sou madura. Elas semprem dizem isso, em tom de elogio. E eu sempre aceitei também, feliz, em tom de elogio. Só que não é.
Na verdade é triste.
Olha só. Olha bem. Eu tenho só 17 anos e espinhas na cara. Eu devia ser só uma menina.
Não que eu não goste da maneira como sou agora. Gosto. Mas essa maturidade não foi por um caminho natural. Foi acelerada. Acelerada por coisas pelas quais uma menina não devia passar.
Porque é cruel. É cruel fazer alguém se tornar adulto de uma maneira mais rápida. Cruel porque é doloroso. É um caminho muito doloroso de se atravessar.
E também, quando se adianta um relógio, algo se perde. Pedaços de uma vida cronológica comum. Não pedaços que eu queira agora viver. Não combinam mais comigo. Mas é um sentimento estranho, talvez de falta, ouvir alguém contando de uma época, de um pensamento que tinham, de uma vivência que passou, e era boa. E você pensa... eu não tive uma igual. Nem parecida.

Pode soar confuso tudo isso, mas desabafos são assim mesmo. Confusos.
Eu sei que não sou a única forçada a amadurecer rápido, existem tantos mais por aí. Mas não devia ser assim.
Meninas deviam ser só meninas.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Lá no alto

as nuvens passam
formando e desformando figuras.
Bom mesmo é
ter com quem observá-las,
e depois guardar aqueles momentos
numa bolha de sabão.

domingo, 8 de junho de 2008

Óculos Roubados

Crianças gostam de observar. Elas reparam nas pessoas, nos detalhes, em cada pequena coisa, e põem-se a imaginar em cima delas. Eu acho que sou ainda criança: sento-me no metrô e observo rostos, roupas, expressões, sapatos para lá e para cá.
Minha infância foi de andar a pé, por estradas de terra, pontes banguelas de madeira sobre córregos , ruas de paralelepípedos e atalhos por entre pequenos bosques (e o mistério e o medo de uma casa escondida nesse bosque, como casa de roça, com gente velha, imagens de santo, cheiro de fogão de lenha, folhas secas na frente, cantos, velas e usualmente oferendas - e o medo do desconhecido). Ou, no mais longe, andar de fusca. Fusca sem bancos (só o do motorista sobrevivia), entre cartelas e montanhas de ovos - segura eles nas curvas pra não tombarem! Os costumeiros dias de entrega: terça, quinta e sábado - anota os pedidos na listinha, prende no painel do fusca, cartelas, saquinhos e todos aqueles ovos. E todo aquele cheiro - cartelas de papelão, ovos.
Imagino como é, então, na infância andar de metrô. Desde cedo: muita gente; desde cedo: tome cuidado; desde cedo: não converse com estranhos; desde cedo contando estações, aprendendo seus nomes, aprendendo a ter medo, a desconfiar, a segurar a bolsa bem perto do corpo (a gente desce na próxima, né?).
Eu sou ainda criança - conto estações, olho lugares, reparo pessoas, imagino histórias.
Uma criança - com mais tamanho e só um pouquinho mais de malícia. A adultescência ainda não me pegou por completo - ao menos não nesse aspecto.
E espero mesmo que nunca pegue. Ver o mundo com os óculos roubados da infância é muito mais interessante.

domingo, 1 de junho de 2008

fim de domingo.

A História de Lily Braun - letra por Chico Buarque

Como num romance
O homem dos meus sonhos
Me apareceu no dancing
Era mais um
Só que num relance
Os seus olhos me chuparam feito um zoom
Ele me comia
Com aqueles olhos de comer fotografia
Eu disse cheese
E de close em close
Fui perdendo a pose e até sorri feliz
E voltou, me ofereceu um drinque
Me chamou de anjo azul
Minha visão foi desde então ficando flou
Como no cinema
Me mandava às vezes uma rosa e um poema
Foco de luz
Eu, feito um gema me desmelingüindo toda ao som do blues
Abusou do scotch
Disse que meu corpo era só dele aquela noite
Eu disse please
Xale do decote, disparei com as faces rubras e febris
E voltou no derradeiro show com dez poemas e um buquê
Eu disse adeus
Já vou com os meus numa turnê
Como amar esposa
Disse ele que agora só me amava como esposa
Não como star
Me amassou as rosas
Me queimou as fotos
Me beijou no altar
Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz
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sexta-feira, 30 de maio de 2008

divagando - sentimentos esfiapados

É assim que acontece a maioria das vezes: as pessoas não percebem que machucam umas as outras. Elas não imaginam o sofrimento que pode estar escondido por trás de um sorriso-piloto-automático, sofrimento que elas próprias causaram.
Seremos realmente sistemas isolados? Meus olhos não comunicam ao outro meus sentimentos? Acho que a maioria de nós simplesmente não compreende os sinais... eles são tão sutis.
É preciso sensibilidade para enxergar além da casca – para ver além da superfície dos sorrisos, risadas, piadas, pilotos-automáticos.
A maioria de nós é em parte autista – só está pronta para tocar a casca da vida, das pessoas, dos sentimentos. A outra parte – líquida, intensa, implícita, extralinguística, sentimentos – essa maioria não consegue encarar nos olhos.
Nem tudo se fala – não é possível espremer a alma de uma pessoa em palavras como se espreme o suco de um limão.
Pensamentos são fiapos de fumaça. Sentimentos também, somente fiapos soltos, subindo e se perdendo na noite doce. E eu não posso fechá-los todos em minhas mãos, transformá-los todos em palavras. Dizer “triste” ou “amor”, é infinitamente mais impessoal do que observar esses sentimentos, extralinguisticamente, subirem em fiapos esbranquiçados no meio da escuridão, exalando toda sua essência: cheiro cinza-azulado de tristeza, cheiro vermelho-rosado de amor.

Eu quero sentir o sabor daquilo que se esconde por trás das coisas intocadas.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Sou-me

Clarice me entende. Ou eu desentendo-me como ela desentede a si-it-mesma.

"Eu sou assombrada pelos meus fantasmas, pelo que é mítico, fantástico e gigantesco: a vida é sobrenatural. E caminho segurando um guarda-chuva aberto sobre a corda tensa. Caminho até o limite do meu sonho grande. Vejo a fúria dos impulsos viscerais: vísceras torturadas me guiam. Não gosto do que acabo de escrever - mas sou obrigada a aceitar o trecho todo porque ele me aconteceu. E respeito muito o que eu me aconteço. Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço. (...) Para onde vou? e a resposta é: vou."
(Clarice Lispector - Água Viva)

No dia em que eu escrever como essa mulher todas minhas águas borbulharão e meu it correrá - um grande, belo, castanho cavalo - por campos livres, destruindo com suas patas tudo que é friamente cimento.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Pirata da Poeira

Uma caixa de Dom Perignon.
Uma caixa velha, desmantelada e empoeirada de Dom Perignon.
Ah, mais! Bem mais!
Um baú do tesouro de papelão.
(e eu pirata desbravadora das estantes esquecidas)
Um sarcófago perdido nos milhões de segundos de uma década,
com pistas de mistérios intímos.
Quebra-cabeça particular de emoções,
mosaico de pedaços de vida.
Caligrafias que se mesclam e a doce dúvida
do seu próprio envolvimento esquecido na história.
Materialização - provas pessoais de histórias contadas.
Revelação - as pistas soltas por milagre se encaixam
(tudo tudo leva ao momento certo de abrí-las, desde as noites sem sono aos programas de TV).
Revelação - e o sorriso custa em deixar o rosto.
Revelação - e os sonhos distantes estiveram sempre muito mais próximos do que poderíamos algum dia sonhar.
Revelação - e a conclusão de que não estou mesmo fadada à normalidade.
Lágrimas emocionadas,
e com reverência quase religiosa recoloco Meu Baú do Tesouro em sua morada.
(e os sonhos estão perto, tão perto, tão perto)

segunda-feira, 19 de maio de 2008

bolinhas.

íntimo - Marcia Maia

sentes?
esse arrepio que disfarço
essa chuva que dentre as pernas
se me brota
umedecendo-me secretamente
esse descompasso bater do meu
coração urdino
jam sessions de desejo
dentro em mim
enquanto olhar sereno riso
nos lábios
todas as tuas histórias escuto
sem que te apresse
sem que me apresse

sentes?

sábado, 17 de maio de 2008

Delirantes pesadelos

Eu havia morrido - não me recordo o motivo - e pessoas queridas estavam em meu funeral. Porém, minha alma estava lá entre eles, e ela tinha existência material. Eu podia ainda conversar, ver, tocar as pessoas, sentí-las e ser sentida, apesar de estar invisível. O primeiro a perceber - e acreditar - em minha presença lá foi o Zé. Ele me ajudou a fazer com que a Dani e o Glauber percebesem também minha presença. Para convencer esse último, acariciei seu rosto, abracei-o, sussurrei em seu ouvido (tutu!) e dei uma mordidinha em sua bochecha. Convenci-o.
Mas o corpo em vida era como uma fôrma de gelo e a alma sozinha era como gelo desenformado: com o tempo derrete, escorre, deixa de existir. Eu já estava derretendo, não conseguia me firmar em pé. Meus três queridos iam me levar para longe do funeral de meu corpo, para que eu pudesse derreter em algum lugar calmo e belo. Abraçando o Zezito para me manter em pé (minha altura já diminuída, semi-derretida, eu apoiava o rosto no meio de sua barriga) queixei-me entre lágrimas de que o Glauber, em sua dor, estava evitando-me nessa versão mole, dissolvente. Bobeira, dizia-me ele. Restava-me já pouco tempo.
Entramos num fusquinha - o Zé dirigindo, a Dan ao seu lado, o Glauber atrás, e eu, já sem poder me sustentar, deitei com a cabeça em suas pernas. Com a força que me restava apertei sua perna e voltei meu rosto para o dele. Ele me fitava diretamente nos olhos - não tenho certeza se podia me ver ou se só sentia minha presença amolecida em seu colo. Partimos em silêncio. Meus queridos me levavam para algum lugar onde houvesse céu azul, grama, montanhas e árvores. Meu amor acariciava lentamente minha cabeça, mas suas carícias afundavam em minha substância já quase líquida. Tentei dizer a ele que continuasse a vida uma vez que eu tivesse ido, mas a cada segundo eu perdia mais percepção do meu corpo, anestesiada, já não podia falar. Sons e imagens misturavam-se. Derreti no banco do fusca.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

E apesar de tudo que escrevo (como poderia ser de outro jeito?) eu sou feliz.

terça-feira, 13 de maio de 2008

eu levo a Lua nas mãos

domingo, 11 de maio de 2008

saudade.


A luz acabou, e como não restasse mais nada a fazer no silêncio da casa, aproveitei o resto de bateria do meu computador para assistir à gravação do espetáculo O Estado das Coisas no Limite do Silêncio; a segunda apresentação desse espetáculo, e a última da qual participei.
Não tenho certeza se era emoção ou se era o frio, mas enquanto assistia, em vários momentos comecei a tremer compulsoriamente. O peso enorme das cenas e palavras se abateu sobre mim, um peso que não percebia em toda sua magnitude lá de trás das coxias, no corre-corre dos bastidores. Tive a visão de um espectador, e percebi o quanto o espetáculo é cruel, o quanto fere, pesa.
Também, em outros momentos, cheguei a chorar, mas então não tão somente pelo peso do espetáculo e suas cenas, mas por saudade. Saudade daquela vivência, daquelas pessoas, daquele momento em minha vida que, mesmo às vésperas dos vestibulares, eu dedicava toda minha alma àquele espetáculo e ao teatro. Sim, aquilo me absorvia por completo. E aliado a isso, também, aquele momento de convivência tão intensa e de pessoas queridas.... aquela amizade forte construída quase diariamente em momentos bons... e também um amor que começava, os carinhos que iam evoluindo, pouco a pouco , intimidade que passou das aulas, dos ensaios, do palco, pra vida.
Ah, mas que saudade das pessoas, saudades dos bastidores, da arrumação, de carregar quilos e quilos de cenário e figurino (quanto figurino!), arrumar todos os mínimos inúmeros detalhes, (quantas correntes pra desenrolar!) saber de tudo que ocorria, e de tantas brincadeiras, diversão de estar junto,e ter naquilo uma felicidade imensa, imensa...
Emoção imensurável, de uma vivência imensurável, saudade imensurável de tudo aquilo.
E a vontade de voltar àquele espetáculo, e a vontade de com a mão puxar da tela cada um que ia aparecendo e abraçar. Vontade de viver tudo aquilo de novo. Aquele é o meu lugar, no palco, nos bastidores, nas coxias.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Tarde


Mas ficou um pedacinho de todo aquele verde dentro da minha mochila.

sábado, 12 de abril de 2008

Essa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi.

Olha, e diz o que vês
das linhas do meu rosto.
Será que elas denunciam
os amores que tive, os sorrisos
que dei, as dores que sofri?
Olha, e diz o que vês
do movimento de minhas mãos.
Será que ele denuncia
a minha inquietação, os devaneios
do meu mundo, os meus traços no papel?
Olha, e diz o que vês
da pedra de meus olhos.
Será que ela diz do meu passado,
do meu agora, do meu querer?
Nota-me assim, porque do mesmo jeito
procuro em tuas linhas os teus antepassads,
e no tremer do canto de teus lábios teus sentimentos,
e no fundo do poço de teus olhos teus desejos,
e nas dobras de tuas roupas teu modo de ser.

Nota, e então deixemos o final aberto para a imaginação.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

hóspede não bem-vinda

Tudo parece bem, mas ela vem.
Com o rosto encoberto por um véu,
difarçando-se na multidão.
Seus passos que não se ouvem
se aproximam. Não noto.
Como espírito,
espreita atrás de meu ombro.
Sua respiração quente passa por minha
nuca.
Perigosamente perto.
Sua mão branca acaricia meu rosto.
As saias finas de seu vestido, ao vento,
envolvem meu corpo.
Não sinto.
Quando dou por mim, ela já se sentou confortavelmete
no meu coração.
Manhosa como um gato é
essa tal de solidão.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Escrever também exorciza demônios.
coragem pra decidir
calma pra digitar.
o suspiro aliviado daquilo que precisava de um novo lar além de um coração enfaixado
(mesmo que um lar feito por códigos binários)

domingo, 9 de março de 2008

...

OK, não costumo participar de correntes na internet, mas essa de blogs é algo mais interessante e eu fui muito educadamente convidada a participar desta brincadeira pela moça do Sentimentalidades Todas ( http://sentimentalidades--todas.blogspot.com/ ). E devo dizer que lhe devia uma já que afanei de seu blog a imagem que uso aqui... e que era tudo pelo que procurava pra uma imagem.
(atualizando algumas coisinhas...)

Então, ao desfio de me revelar (isso é realmente um grande desafio pra mim no sentido mais amplo da palavra!)

Se eu fosse um mês seria... Agosto. Porque é mês de Semana Euclidiana, e só isso já bastaria; mas pra complementar ainda tem um certo friozinho, ventos fortes e muitas folhas caídas pelas calçadas da cidade... ótimas pra se pisar. Ótimo mês para sonhar.

Se eu fosse um dia seria... Sábado- dia de teatro

Se eu fosse um número seria.... 33 (tem gente que entende...)

Se eu fosse um móvel seria.... um puff- porque descobri recentemente que eles são maravilhosos pra se espalhar

Se eu fosse um líquido seria.... Tequila! (hmmmmmm....)

Se eu fosse um pecado seria.... Preguiça (repetindo uma resposta já dada por outra pessoa: que venha o ócio criativo)

Se eu fosse uma pedra seria.... uma pedrinha redonda de beira de rio

Se eu fosse um metal seria... Prata

Se eu fosse uma árvore seria... uma jaboticabeira, das que subia na casa da minha vó pra comer jaboticaba, ou uma mangueira, nas quais a gente amarra balanços de pneu. Ou ainda (eu poderia realmente ser muitas árvores) um ipê amarelo, enorme e imponete, que se erguia sozinho num gramado, perto de um tronco "da coruja" e atrás de uma pequena mata. Fundo de muitas fotos e muitos pique-niques, em Tapiratiba. Infelizmente (e eu chorei quando vi) essa árvore foi queimada. E também um ipê por alguns motivos a mais: Ipê é também a representação de amor.

Se eu fosse uma fruta seria.... uma Amora! (por causa de uma certa quitandinha feita numa semana euclidiana...saudades do abacaxi, da cereja e da(o) banana)

Se eu fosse uma flor seria... uma margarida.... dessas que nascem em jardins que crescem sozinhos

Se eu fose um clima seria... friozinho de inverno brasileiro

Se eu fosse um instrumento musical seria... Piano. Porque toca as músicas que me embalam.

Se eu fosse um elemento seria.... ar. (porque invejo sua leveza, porque sonho em flutuar)

Se eu fosse uma cor seria.... Roxo. simplesmente

Se eu fosse um animal seria... já sou um animal! Homo sapiens sapiens

Se eu fosse um som seria.... o som daqueles "sinos" (tubos cilíndricos que se põe no vento para se chocarem e fazer barulho e que eu não sei o nome ao certo- só que daqueles feitos de bambu)

Se eu fosse uma letra de música seria... (difícil!) Tempo Perdido- Legião Urbana, é.... acho que poderia ser

Se eu fosse uma canção seria... bom, seria mais uma melodia, de Yann Tiersen para Amélie Poulain

Se eu fosse um estilo de música seria... Rock, (dentro dele todos os tipo) porque é variado: vai desde momentos românticos, filosóficos, pensadores, até momentos de raiva, revolta, etc...

Se eu fosse um perfume seria.... Amor Amor . porque tem cheiro de frutas. doce, alegre e envolvente

Se eu fosse um sentimento seria.... um mix de felicidade e melancolia

Se eu fosse um livro seria.... Água-Viva, de Clarice Lispector. Porque parece que ela leu meu interior e depois escreveu o livro.

Se eu fosse uma comida seria.... não sei... todas! (exceto escarola refogada e jiló)

Se eu fosse um lugar (cidade) seria... Monte Verde. Não conheço, nunca fui lá, mas quando era criança vi uma matéria numa revista sobre essa cidade, na divisa entre SP e RJ, numa serra, de colonização alemã, pequenininha, cheia de morros cheios de verde, com chalés típicos onde se faz Struddel e artesanato, e com trilhas e cachoeiras. (talvez a utopia e idealização sejam melhores que a realidade)

Se eu fosse um gosto seria... agridoce. (nunca os extremos, sempre os ambíguos)

Se eu fosse um cheiro seria.... o cheiro de um envelope, que mistura uma carta queimada nas pontas, um papel de seda vermelho, uma borboleta seca e uma imensa saudade. Mas também o cheiro de folhas secas.

Se eu fosse uma palavra seria.... Busca

Se eu fosse um verbo seria... Sentir

Se eu fosse um objeto seria.... uma vitrola - sim, daquelas que toca bolachões de vinil

Se eu fosse uma roupa seria... um vestido, preto, curto, larguinho, já meio surrado e com algumas bolinhas brancas... exatamente como o que está no cabide dentro do meu guada-roupa

Se eu fosse uma parte do corpo seria.... um pé, bem apertado, dentro de uma sapatilha de ponta.... que depois andaria descalço na terra

Se eu fosse uma exprssão seria.... Gestos

Se eu fosse um desenho seria.... a Mafalda!

Se eu fosse um filme seria.... O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

Se eu fosse uma forma seria.... um Attitude (para os que não conhecem ballet, ou não sabem qual é a forma de um attitude:
http://www.fotolog.com/aniushkita/39732940 )

Se eu fosse uma estação seria.... Outono

Se eu fosse uma frase seria... "Escrevo por profundamente querer falar, embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio." (Clarice Lispector em Água Viva)





.... e agora como me foi passado, passo o desafio às pessoas seguintes:

ao Eduardo, amigo blogueiro de tempos, do http://dudapih2.blogspot.com/

à Bruna, menina-Kiwi, do http://restos-e-sobras.blogspot.com/

à Dani, minha irmã-gêmea, se ela ainda tiver tempo pra mexer no seu blog: http://mypurpleumbrella.blogspot.com/

ao Glauber, Tutu mais tutu do mundo, do http://oseriopalhaco.blig.ig.com.br/


à Maria Fernanda, que anda se tornando comentadora aqui, do http://bonequinhadeseda.blogspot.com/

ao Sonega, querido amigo sumido, do
http://ourfuckingmechanicalworld.blogspot.com/

sexta-feira, 7 de março de 2008

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Transcrição


palavras soltas num guardanapo
pelo puro prazer de escrever.
uma porta entreaberta, lembranças
divertidas (talvez indecentes...)
saudades de abraços, de pele, de
beijos, de risos compartilhados.
qualquer papel pode ser meu confidente
fiel. até mesmo um guardanapo.
echapés e uma sapatilha estudante.
felicidade pessoal e intransferível; realização
amor...? vários tipos dele.
desejo...? é, pode ser.
carência...? talvez


piano
sonho . . . em transe
retrato: amiga de canetas, papel,
palavras, cafés, nomes estranhos
em francês.
constantemente visitada por
sorrisos e lágrimas.
A conta por favor.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

É dia de feira

O Sol é quente; verão de país tropical. O calor inunda a rua tomada em que circula uma pequena multidão. A não ser que você não suporte calor humano (muito mesmo) uma pequena calamidade e barulheira, irá gostar. Pra mim é uma diversão!
As barraquinhas se espremem lado a lado, lonas listradinhas coloridas servem de cobertura. Bacias de plástico são cheias dos mais diversos produtos... e passando-se entre duas barracas de frutas o cheiro doce de pêssegos, mangas, laranjas e muitas mais invade-me as narinas e entorpece levemente os sentidos.
-Olha, a laranja tá acabando, tá acabando o preço abaixou de novo! Aproveita, dona!
-Moça bonita, pode chegar, pode chegar que a fruta tá doce, o abacaxi tá um mel, abacaxi de um real! Abacaxi de um real!
-Olha o mamão, só um real a bacia!

"Acerooola, acerooooola. Acerola cura resfriado, gripe, é bom pra suco, todo mundo gosta. Olha a acerooooooola." Assim apregoava uma negra de longas tranças com a voz divertida e estridente... feito uma vitrola que toca só uma música.
-Pô, pára de falar, aí! A feira já tá acabando! (os feirantes ao redor comentando. aos gritos, claro)
-Cala a boca, tu é chata, aí!
-Pô essa mulher é muito chata, aí!
-Paro não! O povo é gosta que eu falo. Aí, minhas acerola já tão acabando! Acerooooooooola! Aceroooola! Cura resfriado e tá acabando!
-Pô, quanto custa tuas acerola, aí? eu compro tudo só pra tu calar a boca!

Passa-se sorrindo.

Nas bancas que vendem ervas, chás, folhas diversas, é delicioso o cheiro de verde. Lembra a casa da avó e seus infinitos chás. Na Barraca de grãos, é quase irresistível enfiar a mão nos sacos, sentindo a massagem suave que cada diferente grão faz na pele. À la Amélie Poulain.

Evite as bancas de carnes e peixes.... nada é perfeito.

Ah, parada obrigatória é na barraca de pastel. Pastelaria de chinês nenhum bate o pastel de feira, de preferência acompanhado de um belo copo de caldo de cana! Gosto de infância, de pedir óstia não consagrada pro padre depois da missa, de feira de domingo, pastel de queijo e mãos dadas com a mãe.

Feira é povo, não o que se vê na novela ou na TV, é povo de verdade. Feira tem vida, tem cor, tem voz e tem cheiro. Tem graça e desgraça, daqueles que a percorrem, olhos no chão, à procura dos restos para levar pra casa.
Feira é diversão!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Borboletas Verdes

Um ruído de repente me tira a atenção. Uma cortina voando à brisa noturna faz o pensamento voar.
Uma triste retrospectiva que se lê faz os bons momentos parecerem ainda mais doces.
Sorri, menina. Sorri e canta. Não tem mais por que chorar.
Aprende, menina. Aprende também a divagar, sonhar e poetar na cidade grande. Barulho de trânsito também pode ser melodia. Não deixa a dureza do concreto te invadir também, menina.
Repara! Ali do lado da pixação no prédio pousou uma borboleta!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Maravilhas do Mundo

O discurso final de O Grande Ditador, filme escrito dirigido e atuado por Chaplin, lançado em 15 de outubro de 1940 (se pensarmos continua extremamente atual, só imagine colocar a palavra internet onde se lê rádio!) :


Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar a todos - se possível -, judeus, gentios... negros... brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós.Neste mesmo instante a minha voz chega a milhos de pessoas pelo mundo afora...milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura os seres humanos e encarcera os inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis!” A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam a vossa vida... que ditam os vossos atos, as vossas idéias os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como a um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquinas! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!
Soldados! Não batalheis pela escravidão!Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou de um grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós o povo tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia -, usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê fruto à mocidade e segurança á velhice.
È pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e á prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzem à ventura em todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês Hannah?! O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz a esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Água viva

Esquece-me.
Eu não fui feita para ser lembrada.
Eu devo ser, para ti, como a chuva:
É maravihoso tomar chuva, sentir os pingos no corpo, abrir a boca para o céu a fim de abocanhar gotas geladas.
Mas depois que a chuva se vai, fica-se com frio.
E se não se seca e toma-se um banho quente, fica-se doente.

Ser como a chuva é doloroso.
Depois que ela cessa e o Sol a evapora, não sobram pistas de sua passagem.
Mas aprendi (ou estou aprendendo) a me conformar.
Com meu estado líquido, cainte, efêmero.
Minha alma em tempestade vai (tem que!) aprender a se aceitar.

Esquece-me.
Chuva não é pra ser eterna. Chuva passa.
Tome um banho quente. Ponha roupas limpas. Espere, que o Sol já vem me evaporar.

Eu chovo. Verbo personalíssimo.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Almofada cor-de-rosa

Nós temos fragilidades. Teremo-as sempre, mesmo que por algum tempo esquecidas. Alguma hora alguma coisa vem es acordam-nas. E a gente toma um tapa na cara: a fragilidade continua ali a nos atormentar, não sumiu como julgávamos. E aquelas pessoas que nos ajudaram a levantar da primeira vez , não, não estão mais lá para dar a mão.
...
E tu jurastes! Jurastes pra ti mesmo que não contarias para mais ninguém; que aquele era o único que podia te ajudar quando essa dor viesse, que podia conhecer teu segredo mais íntimo, teu pesadelo mais sombrio. E ele não está mais. E tu jurastes. Jurastes!
agora estás sozinho. Não há mais a quem recorrer que conheça-te tanto, que entenda-te, que possa apoiar-te sem se assobrar com a bagagem que trazes.
Roubaram-te as muletas antes que pudesses afirmar as pernas e disseram-te: anda!
Se não conseguires andar, que mais te resta?

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Felina

Como um gato
num muro
sem sono na noite
sentindo o vento, enfrentando-o
como se enfrenta onda forte do mar.
A cidade dormindo
um pingo ou outro caindo
e eu encarapitada, invisível para o mundo
ao som de Led Zeppelin e Legião.
Um estranho aconchego que encontro
no escuro, no vento,
na solidão.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

The smell of butterflys

Apertada duramente, estou. Amarrada a tão doces e agora cruéis lembranças , eternamente as carrego comigo, em um caleidoscópio que oscila sempre entre o sorriso saudoso, agodão doce, e o amargo.
Este emaranhado de galhos que trago às costas tem ramos já secos, sem folhas verdes, sem frutos, mas que não consigo quebrar. As folhas secas trazem lembranças estampadas e se recusam a cair.
Queria eu seguir em frente mantendo esse pedaço de galho seco às costas, lembrando-me dele só quando me voltasse a contemplar as cenas gravadas e suas folhas, e um dia, semanas, meses depois da última olhadela, surpreender ( e surpreender-me) uma flor a desbrochar, e mergulhar novamente em seu encanto de branco, delicadas asas, seu perfume doce, de cor-de-rosa claro, a inundar-me toda.
Mas continuo, e não preciso nem mesmo voltar-me e olhar as folhas secas para ver suas imagens - elas estão gravadas em minhas retinas, e a cada segundo do relógio um fiapo de seu odor chega às minhas narinas, odor de folhas secas- a princípio bom, verde, mas logo em seguida o cheiro de verde em decomposição, não mais vivo, partida. E esta demora, ou incapacidade, da flor em florescer, pesa. Dobram-se-me os joelhos sob o peso dessa inexorável esperança sem membros.
Já não caminho por meus próprios músculos. Além da rotina, tudo que me move é só a leve brisa que passa pelos outros galhos da árvore, que por instantes põe-me frente aos olhos as outras folhas verdes ainda existentes, com cheiro de verde, de fresco; instantes em que estendo alguns dedos à frente, antes que volte a mim o melancólico cheiro das folhas secas.
Eu sou apenas o sussurro de minhas folhas e galhos.

Experimente cheirar : folhas verdes, cheira quase como pinheiro de natal; um saco cheio de folhas secas ; flores de perfume ligeiramente adocicado . Os cheiros têm significados que se explicam por si mesmos.




Apertada duramente, estou. Amarrada a tão doces e agora cruéis lembranças , eternamente as carrego comigo, em um caleidoscópio que oscila sempre entre o sorriso saudoso, agodão doce, e o amargo.
Este emaranhado de galhos que trago às costas tem ramos já secos, sem folhas verdes, sem frutos, mas que não consigo quebrar. As folhas secas trazem lembranças estampadas e se recusam a cair. Queria eu seguir em frente mantendo esse pedaço de galho seco às costas, lembrando-me dele só quando me voltasse a contemplar as cenas gravadas e suas folhas, e um dia, semanas, meses depois da última olhadela, surpreender ( e surpreender-me) uma flor a desbrochar, e mergulhar novamente em seu encanto de branco, delicadas asas, seu perfume doce, de cor-de-rosa claro, a inundar-me toda.
Mas continuo, e não preciso nem mesmo voltar-me e olhar as folhas secas para ver suas imagens - elas estão gravadas em minhas retinas, e a cada segundo do relógio um fiapo de seu odor chega às minhas narinas, odor de folhas secas- a princípio bom, verde, mas logo em seguida o cheiro de verde em decomposição, não mais vivo, partida. E esta demora, ou incapacidade, da flor em florescer, pesa. Dobram-se-me os joelhos sob o peso dessa inexorável esperança sem membros.
Já não caminho por meus próprios músculos. Além da rotina, tudo que me move é só a leve brisa que passa pelos outros galhos da árvore, que por instantes põe-me frente aos olhos as outras folhas verdes ainda existentes, com cheiro de verde, de fresco; instantes em que estendo alguns dedos à frente, antes que volte a mim o melancólico cheiro das folhas secas. Eu sou apenas o sussurro de minhas folhas e galhos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Margaridas

Colhi pequenas flores cor de lilás no canteiro em frente à minha casa na hora de sair. Depositei-as cuidadosamente num triste jardim, de vista tão bela. Repousa lá, amiga, frente à vista que amava, das trilhas que gostava de fazer, de sua paixão por cachoeiras. Repousa lá, amiga, 18 anos apenas, eternamente num jardim frente a belos morros.
Mais à frente no caminho, numa simples casa de roça na beira da estrada, de uma senhora gorducha e bonachona, colhi margaridas e florzinhas brancas que se chamam boa noite. Quando era criança, no dia de finados nós colhíamos margaridas e outras flores que cresciam na rampa abandonada da garagem do quintal da minha avó, e dávamos aos mais velhos para levarem ao cemitério.
Hoje ninguém mais leva flores apanhadas no quintal de casa ao cemitério. Levam vasos. Envoltos em plástico e ainda por cima com o cartãozinho do cemitério! E eles deixam no pára-brisas dos carros estacionados panfletos anunciando seus serviços e divulgando o sorteio de um jazigo (!) completamente quitado com três gavetas. Puro comércio.
Eu colhi minhas singelas margaridas, que vieram junto com insetos pequeninos, e as depositei junto daquela cuja casa me ensinou a amar as flores que nascem por si mesmas.
Acho que sou profundamente nostálgica em certos assuntos. As flores colhidas à beira do caminho hoje, levam consigo carinho e saudades. E minha imensa nostalgia.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Aulinha de química para os que sofrem calados

De repente, sem a voz se levantar, algo muito grande muda de figura. Não cai e quebra, cristal em mil pedaços. É uma solução no laboratório de química, que quando adicionada uma gotinha muda silenciosa e asustadoramente rápido de cor, do rosa sonhador para o azul cinza chumbo , ou então que por ter sido deixado aberto o frasco, foi-se evaporando (que solução extremamente volátil essa... pobre dos que esquecem a tampa do frasco aberta) .
A tristeza é silenciosa e muda como todo o resto. Muda a boca. Muda a boneca.
Ou talvez (ainda uma metáfora a mais) é um frasco de perfume deixado ao sol. O maravilhoso perfume foi perdendo seu cheiro dentro do belo frasco.... e só da noite pro dia é que se deu conta disso.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Sorvete de Goiaba

Há alguns tombos que nos desorientam por completo, há situações pelas quais se passa que não se desja ao pior inimigo, que não se imagina ser possível existir, que não se imagina ser possível com você. Mas passam. Às vezes uma pequena incômoda imagem ainda quer vir à tona, mas deve-se espantá-la como se espanta uma mosca. E ela passa. E o que fica é a força que vem do amor, é a doçura silenciosa de, mesmo não tão junto, ter pessoas queridas, é a imensa alegria (apesar de melancólica) de ter planos e sonhos e esperanças tão grandes que não nos deixam cair. É pisar, quase que não pisando, no chão, quase que flutuando, sobre folhas secas. Pisar nos astros distraidamente. Saborear a imensa doçura da vida, da paz, e reconhecer que se tem muito, mesmo que às vezes pareça tão pouco, reconhecer que se tem muito tendo a paz que inexiste naquelas situações que nos desorientam. Reconhecer que mesmo triste, a vida é doce, e não é triste. Você tem motivos para sorrir.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Lágrimas vermelhas como o céu, como a Lua, empapam o esparadrapo que estrangula o peito.

Lágrimas silenciosas espremidas, num ônibus lotado de dorminhocos, no calor caótico do trânsito da capital.
Silenciosamente solitárias.
Água salgada ocular para tentar limpar imagens da memória.
Memórias não vividas de abraços apertados a tentar acalmar a dor de um peito enfaixado, justamente enfaixado, costurado com grossas fitas a apertar as costelas.
A dor psíquica quase se torna física.
Estrelas, céu, mar, pedras, passos com pressa, lágrimas, risadas, sonhos, devaneio vão, vã tentativa de esquecer a verdade.
À beira da janela tristes folhas de eucalipto balançam à brisa fétida do trânsito da capital.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Noite em Família

O choro inconsolável da filha tirou-a do seu sono para observá-la desfazer-se em lágrimas. Frente à resposta fraca e molhada da menina de "nada" à sua pergunta do que houvera, acomodou-se dura no batente da porta, e com dura expressão ali continuou, sem dizer palavra.
Sentou-se à mesa, comeu sozinha, assistiu passivelmente ao jornal e à novela, ignorando os ruídos de resto de choro vindos do quarto da menina, que se jogara na cama de roupa e de tênis, e após muitas lágrimas abafadas adormecera, dando silêncio e paz para a mãe terminar sua novela e entregar-se também às densas ondas de sono.

domingo, 16 de setembro de 2007

Vácuo

No aconchego de metal da minha cama vazia, meu quarto imerso em sombras, músicas silenciosas que só eu ouço abafam dos ouvidos o resto das vozes do mundo. Estou deitada, encolhida em uma bolha de vácuo cheia de silêncio e música. O deserto é aqui, e o ar machuca os pulmões assim como água gelada não mata a sede. O sangue que sai da caneta macula a pureza cândida da folha virgem. A paz do isolamento confunde as imagens de felicidade ou tristeza. É ter paz no caos. É ser feliz com os olhos inchados de choro. As distâncias são quilométricas, são de semanas, meses, anos. São distâncias de silêncio e palavras perdidas, de saudades e de falta, de abraços queridos, de beijos desejados, de toques ansiados, de planos e sonhos traçados, de sonhos que se compões paisagem a paisagem na sequência de uma jenela de ônibus. Minha felicidade é feita de silêncio, de sonhos, de lágrimas, de música.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Mas o Sol insistiu em nascer de manhã... em me tirar da cama, me empurrar pra vida, e sem dar importância para meus olhos inchados me disse assim: " The show must go on! "

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Indagações

Alguma vez você já teve vontade de que te enrolassem em panos quentes, como se enrola um bebê? Já sentiu vontade de ficar pequenininha, num silêncio profundo, como dentro de um ovo?
Já...?

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Ao chão

De repente, então, um anjo cai ao solo, com as asas quebradas.
No pedregulho ajoelhado, traz a pele esfolada,
curvado pra frente, todo seu corpo treme, com dificuldade de respirar.
O coração ele sente bater doloridamente, não no peito, mas nas costas, e a cabeça roda
roda
O rosto, nada angelical, se cobre de lágrimas, inchado, vermelho e quente.
Levado por impulso tenta falar, mas nada inteligível se desprende de sua língua em meio à saliva excessiva.
Nas mãos trêmulas segura pedacinhos estilhaçados dalguma coisa que ele pensou talvez ser um brinquedo, ou de borracha. Tenta em vão montar o quebra-cabeças em suas mãos, mas cacos estão perdidos.
Tenta em vão remontar os quadros dos fatos, mas sua cabeça já os embaralhou em meio a tantas quadros que ele gostaria de esquecer. Parece agora, muito mais um zumbi.

Um pobre anjo jaz no chão, despedaçado, pagando caro pelos erros. Pagando caro pelo seu maior erro: não perceber, por muito grande e valioso tempo, que estava errando.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Alada, lunar

Pés descalços e luzes apagadas na casa vazia.
Da janela entreaberta vêm os ruídos urbanos
a se misturar com a música;
vem o assobio do vento gelado
e vem a única luz, branca, lunar
a iluminar precariamente a cozinha.
E se este cândido disco se esconde entre as nuvens
e a penumbra a invade,
não traz luz, não - deixa-a assim.
Então quem sabe um anjo
que passe e veja de cima
naquela penumbra
aquela menina
no seu triste (será?)
momento de paz
espalhe pro resto dos seres alados
que uma pequena
tão tenra e terrena
traz nas costas
transparentes, etéreas asas,
mas não se deu conta
nem pode voar.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Coração amarelo

Eu trago no peito a eterna tristeza
daqueles que sorriem ao ver uma bela árvore,
daqueles que observam as flores ao seu caminho,
daqueles que lêem versos.
Trago comigo a eterna tristeza
daqueles que sorriem ao fitar um rosto de criança,
daqueles que se deixam levar por uma melodia,
daqueles que morrem de rir.
Ao mesmo tempo que o sorriso aparece
as lágrimas estão a querer saltar,
sem motivo. Só porque trago
no peito essa eterna tristeza
que vai furando devagarinho,
ponta de lápis sendo girada no queijo
esburacado do meu coração.

domingo, 8 de julho de 2007

O pote que pariu

" (...) Agora, de volta, achamos o pote tibi emprenhado. A barriga do pote fosse agora um canteiro arrumado. Estava bom de criar. Foi que veio dái um passarinho e cagou na barriga do pote uma semente de roseira. As chuvas e os ventos deram à grvidez do pote forças de parir. E o pote pariu rosas. E esplendorado de amor ficou o pote! De amor, de poesias e de rosas. "
(Manoel de Barros)

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Cana queimada, melancolia

O vento gelado traz o inconfundível cheiro de cana queimada, que impregna agora todas as noites depois que os canaviais entraram em cima das outras terras na corrida pelo progresso. Puxo mais para perto o casaco. A Lua, amarela e achatada como uma bola murcha, faz com que eu me pregue no chão. O silêncio de uma cidade adormecida cheira a cinzas. Os olhos ardem, na garganta faz-se um nó. Os olhos se fecham e a melodia leve e triste de um piano se materializa em meus ouvidos. O coração se aperta, se asfixia e se divide.
Alegrias e tristezas andam sempre de mãos dadas.
Uma lágrima escorre pelo rosto ardente.
E o cheiro de cana queimada me envolve a ponto de me levar a um estado de transe.
Revejo cenas confusas, pele, boca, pele, ônibus, pele, salto preto, pele, estátua, pele, farelos de borracha, pele, remédio, pele com pele. Uma bailarina gira infinitamente em meio à névoa asfixiante.
Os lábios se abrem em uma palavra inexistente.
E ao longe, em meio a tanta fumaça, um piano que só eu ouço não pára nunca sua valsa triste.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

enrole a língua, beba ainda quente

O silêncio às vezes conforta.
Mas às vezes ele se aproxima
feito lança comprida e pontiaguda,
fria e inflexível, a penetrar-me
a carne lentamente, exibindo,
arrogante, um brilho frio de metal,
carregado de intolerância e superioridade tola.
Machuca. Começa a querer sangrar.
Sem reclamações se segue.
É silêncio.

terça-feira, 12 de junho de 2007

No silêncio de um amor

Te amo - português
Lubim ta - eslovaco
Ha eh bak - turco
Ya vas liubliu - russo
Ngiyakuthanda - zulu
Je t'aime - francês
I love you - inglês
Te quiero - espanhol
Wo le ni - chinês
Aishiteru - japonês
Ich liebe dich - alemão
Ya te volim - croata
Tora dost daram - persa
Sakan te volim - macedônio
Gramo te bue - lituano

Te amo pode ser dito em várias línguas. Nenhuma porém é mais sincera que a língua universal do amor. No silêncio, olho no olho, mãos unidas, corações acelerados o amor se mostra em toda sua força e beleza.


Dedicado ao garoto que me fez descobrir tudo isso.

domingo, 3 de junho de 2007

eu quero....

Um dia quero uma casa e uma vida, do jeito que quero.. do jeito que espero
Andar descalça na grama molhada do jardim, comer fruta na mão, ter uma "banheira da vovó" pra tomar banhos longos, quentes e bem cheirosos, ter uma estante abarrotada de livros, deitar numa rede colorida para lê-los, e também pra aproveitar a sesta.
Ter vasinhos de flores nas janelas, comer brigadeiro na panela com colher-de-pau, se enfiar debaixo de um edredon pra assistir filme nas tardes frias de chuva, sentar no jardim pra sentir o aroma de dama-da-noite nas noites quentes de luar, e ali ficar por horas, aproveitando uma boa conversa.
Comer pastel de queijo na feira de domingo, fazer bolo, se lambuzar com cobertura, tomar banho de mangueira e banho de chuva, fazer guerra de travesseiro, comer bolinho-de-chuva, café com leite bem quente. Sentar em cima do muro, olhar a cidade pela janela.
Viver

quinta-feira, 3 de maio de 2007

A menina da saia branca

Desabafo estrangulado
Gritaria mental
Cansaço
Imagina-se tudo o que se quer falar
e nada se diz.
Lágrimas espremidas,
de crocodilo,
fazem brilhar meus olhos vermelhos....

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Renata

Uma amiga hoje foi viajar. Embarcou numa barca em formato de cisne e partiu em direção oeste. Percorreu intermináveis mares até a terra das praias brancas, e mais ao longe, sobre uma verde colina, encontrou a cidade em que se instalou. Cândida cidade onde passará todo o resto do tempo do mundo. Agora ela tem todo o tempo do mundo.

Com essa fantástica imagem me consolo da dor de perder uma amiga. Andando pela cidade, mês pés me levariam a qualquer lugar, menos de volta pra casa. As tristes imagens eu agora quero apagar, pois tão jovem, deitada entre flores que não cessavam de chegar, no seu cândido leito final (ó, cândido leito funeral dos que se vão ainda puros), ela repousava. Uma delicada roupa em cor-de-rosa, um terço de pedrinhas entre as pálidas mãos, a face sem a alegria que costumava estampar, os olhos cerrados, eternamente cerrados.
Fui andando sem rumo certo, vendo o Sol se esconder atrás dos morros, pintando o céu de tons rosados, vendo o azul escuro ir tomando conta de tudo pouco a pouco, gradualmente, e estrelas irem saindo, até que o céu inteiro estava negro e salpicado de estrelas.
Nas noites sem lua as estrelas brilham ainda mais. Infinitas.

“Se o mundo é mesmo parecido como que vejo prefiro acreditar no mundo do meu jeito. (...) Então de hoje em diante todo dia vai ser o dia mais importante.”

Vai com os anjos. Vai em paz....

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Comunicado

Olá! Há algum tempo tive vontade de postar diferentes tipos de textos, mas esse blog é muito "meu" para postar coisas diferentes... e sinceramente gosto dele assim. Então estou inaugurando um novo blog, Arquivos da Caxola , onde publicarei outros tipos de textos (narrações, dissertações..) e ireri mantendo os dois blogs paralelamente. Visitem e dêem sua opinião!

quarta-feira, 28 de março de 2007

Bailarina Urbana

À noite
no barulhento silêncio da cidade,
me perco vendo as estrelas.
Quem dera eu
mergulhar
nessa imensidão escura;
entre as estrelas dançando,
fazendo piruetas, distraída,
sobre os astros;
ao ritmo dos sons urbanos.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Encadeada

Medo
Atrás de cada esquina pode estar um bandido, um menino,
pés no chão, canivete.
Corra! Não espere escurecer! Pega a chave,
tranca a porta, cadeado.
Se feche: entre quatro paredes cuide da sua casa,
sua filha, sua imagem, sua moral.
Chore! Chore!
Você se prende, se isola e depois reclama solidão.

Não! Me larga!
Abro a porta e o cadeado- saio na rua
roubo uma flor
sento na praça
na calçada
deito no chão no concerto
danço no meio do povo
e dou risada.
Deixa eu abrir minhas asas!
O medo que sinto não me acorrenta.
Meu coração quer voar.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Brutal

Pelos dias, coisas que vejo, histórias que escuto, me espanto.
Raiva, incredulidade, desesperança: vejo mais e mais que o homem é ridículo, estúpido, bruto. Uma infinidade de defeitos que se irradiam e estragam tudo o mais a sua volta.
Me revolto, me entristeço.
É como se eu pudesse ver, no longo corredor as duas crianças loirinhas encolhidas à porta, chorando por ouvir os macabros sons que vinham do quarto.
É como e eu pudesse ver a garotinha sair correndo da sala para o quarto e fingir que estava dormindo ao ouvir o som do carro de seu pai chegando do trabalho.
É como se eu pudesse ver tudo aquilo que eu não queria que existisse.
Me assustei com isso quando descobri
Que é algo mais comum do que eu imaginava
Mais horrível do que eu podia me lembrar e
Que está mais próximo de mim do que eu podia querer.

sexta-feira, 9 de março de 2007

Turbulência

Me perdi em meus caminhos
as mãos e o corpo todo tremia
o rosto vermelho e quente
a respiração arquejante e quebrada.
Me mesclei dentro de mim
a vontade de quebrar tudo e a consiência de não fazê-lo
discutindo em minha cabeça já tão quente.
A vontade louca de sair correndo batia de frente com o bom senso
(maldito bom senso!).
Por fim deixei que as leis da inércia vencessem
e o bom senso dissesse "muito bem"
e a parte de mim que gritava
agora amarga letargicamente o brilho frio da tela do computador.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Sobre homens e mulheres e suas almas em comum

É dia das mulheres, e se ouve falar da causa feminista
vêem-se caminhadas, protestos, das diferenças
.... mas eu desconfio que homens e mulheres são bem mais parecidos do que se alega
Não, não que sejam iguais.
Mas no fundo, no fundo são almas humanas
que querem felicidade, amor, que passam por bons e maus momentos,
que se apaixonam, que sofrem.
O que vejo por aí é que muitos (homens e mulheres) não querem revelar suas almas, e se escondem atrás de mitos (que homem não chora, que mulher chora por qualquer coisinha...) e acabam se distanciando.
Mas o que me encanta é ver os que saem dos mitos e se mostram, e as distâncias diminuem, e a gente consegue compreender mais e ser mais compreendidas.
Homens vão sempre ser homens. E as diferenças sempre vão existir.
Mas no fundo, bem lá no fundo, a essência da alma é assexuada.
Lá somos iguais.
E lá, tudo o que mais se quer é amor.

sábado, 3 de março de 2007

Se esse palco falasse....

O negro chão que piso, amplo e quente, é como pisar em areia de praia, em terra vermelha de barro: me sinto viva. De compridas e negras cortinas ladeado: refúgio, esonderijo. Quantas coisas podem sair por detrás dessas coxias, meu Deus? Num quadrado de 10 por 10 metros, cabe muito mais que só 100m quadrados, cabe um infinito. Não aguentava mais de saudades, saí correndo e me joguei de volta e fiquei deitada me interando desse palco. E dele não queria mais sair.
Dizem que para o artista o palco é um lugar sagrado. É mesmo. Mas para mim, esse palco em especial é também minha casa. Antes mesmo de ele ser construído eu já estava ali. Vi ele ser erguido e não teve mês que se passou em que eu ficasse sem ele. Nesse palco subo e deixo pra trás todo mal ou preocupação, e quando desço volto renovada, com vontade de aprender, descobrir, pesquisar, viver a arte.
Simplesmente: Eu Amo a Fábrica de Expressão!!!!

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Recado ao senhor do 903

(Entre os exercícios de português atrasados que fui colocar em dia, pude me deliciar com esse texto de Rubem Braga que merece ser levado adiante.

“Vizinho-
Quem fala aqui é o homem do 1003. Recebi outro dia, consternado a visita do zelador, que me mostrou a carta em que o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria visita pessoal - devia ser meia-noite – e a sua veemente reclamação verbal. Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é explícito e, se não o fosse, o senhor ainda teria ao seu lado a Lei e a Polícia. Quem trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso noturno e é impossível ao 903 dormir quando há vozes, passos e músicas no 1003. Ou melhor: é impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita: pois, como não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos a ser dois números empilhados entre dezenas de outros. Eu, 1003, me limito a Leste pelo 1005, a Oeste pelo 1001, ao Sul pelo Oceano Atlântico, ao Norte pelo 1004, ao alto pelo 1103 e embaixo pelo 903- que é o senhor. Todos esses números são comportados e silenciosos; apenas eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, de ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo.
Quem vier à minha casa (perdão, ao meu número) será convidado a se retirar às 21:45, e explicarei: o 903 precisa repousar das 22 às 7 pois às 8:15 deve deixar o 783 para tomar o 109, que o levará até o 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala 305. Nossa vida, vizinho, está toda numerada: e reconheço que ela só pode ser tolerável quando um número não incomoda o outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhe desculpas – e prometo silêncio.
...Mas que seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: “Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em sua casa. Aqui estou.” E o outro respondesse: “Entra, vizinho, e come de meu pão e bebe de meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a lua é bela.”
E o homem trouxesse sua mulher, e os dois ficassem entre os amigos do vizinho entoando para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores, e o dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz. ”
(Rubem Braga)

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Carnaval

Estava sentada sozinha na noite e na rua. Tentava sufocar as mágoas num gordo pão de mel. Deitei, olhando o céu, ouvindo música. As estrelas brilhavam sem muito brilho, pálidas e bobas, distantes. Uma, porém, passou a brilhar mais e mais, sozinha bem na reta do meu olhar, e naquele momento pensei “solitária como eu”. Tentava evitar as lágrimas que queriam escorrer de meus olhos desenhando imaginariamente figuras geométricas nas estrelas. De repente uma palavra de uma estranha indagando se eu queria ajuda (me confundindo com os inúmeros bêbados que jazem pelas calçadas nessa época) fez desencadear meu choro desconsolado. Chorava e já nem sabia mais porque chorava, chorava feito criança, esperando uma resposta das estrelas, esperando delas um abraço, um apoio que não veio.

Já em casa tudo em mim se misturava. A música, o banho quente, o barulho distante de uma cachoeira, lágrimas, duas meninas conversando numa pedra à beira d’àgua, a água quente caindo na nuca, dois corpos salpicados de sol de fim de tarde numa esteira sobre a grama fofa embaixo de uma árvore, a conversa sincera, o mal-estar do choro, os gritos recentes: desabafos enraivecidos, o rosto inchado. Palavras silenciosas ecoando em minha cabeça. Uma boca cuspindo um texto pronto feito da minha desgraça, soletrando palavra por palavra o que eu viria a digitar depois. Maldita boca cheia de palavras que não deixa minha cabeça.

Depois me arrumei e me fiz bela, passei a maquiagem, coloquei a máscara de menina animada e saí pra uma noite inteira pulando. Era carnaval.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Morri

e não me dei conta
no momento em que entrei nesse mundo.
Mas passei a viver
como alma translúcida
observando a vida ao redor.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Seu Domingos

Um velhinho pequenino, de cabelos brancos e ralos, a calva subindo pela cabeça, mais avançada nas suas laterais. O rosto sempre sério, expressão fechada, braços cruzados. Uns óculos de armação fininha apoiados sobre o nariz do rosto enrugado de pele clarinha. Um jaleco sempre sujo de giz com uma caneta no bolso. Os cabelinhos ralos que insistem em ficar despenteados lhe dão um arzinho de “professor maluco”.
Suas aulas são odiadas por grande parte dos alunos. Ele enche a lousa com desenhos complicados e explicações em letras miudinhas. Fala pouco, explica rapidamente a matéria e não troca com os alunos uma única palavra que não seja relacionada a ela. Poucos ousam fazer-lhe perguntas.
Dizem que já deu aula em grandes escola e universidades e para grandes nomes como Maluf (!) e Chico Anísio (!!!!!!!!!!!!). Dizem que já foi alegre e brincalhão, viajava com os colegas e fazia tudo por uma cervejinha. Dizem que trabalhava demais, mas um dia decidiu parar e se dedicar à sua amada. Dizem também que no momento em que decidiu dedicar-se a ela, para um câncer perdeu-a. Dizem que a partir daí passou a viver amargurado.
Hoje tem sua rotina. Corre todas as manhãs, almoça sempre no mesmo restaurante com uma latinha de Skol. Dá aulas mecanicamente em uma escola particular numa cidadezinha de interior, ensinando a adolescentes da elite local, mimados e desrespeitosos. Conversam enquanto ele explica sua matéria. De 35 alunos, 7 prestam atenção. Eu presto atenção. Não à matéria, pois biologia não me interessa minimamente. Presto atenção nele. Sua voz que parece uma gravação de aula pronta, sua impaciência ao não receber respostas às suas perguntas, seus gestos sérios, sua expressão inalterável diante da barulheira na classe, seu olhar perdido na sala, evitando outros olhares, seu jeito curvadinho de escrever na lousa. Tudo nele me intriga. Quem é o homem por trás do professor? Observo-o longamente durante a aula e escrevo. Tudo que faço é observar e tentar compreender esse velhinho que de repente eu surpreendi me encarando. E por alguns segundos nos encaramos nos olhos.
Bate o sinal. Ele pega o caderno de chamada, a caixa de giz e sai pelos corredores para seu almoço solitário com companhia apenas da latinha de Skol.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Momento pra recordar

Numa tarde quente, num quarto escuro eu cochilava levemente a preguiça de depois do almoço.
Encolhida, de lado, abri ligeiramente os olhos e me deparei, tão perto do meu rosto, com um outro rosto, que com a expressão de quem vê o pôr-do-sol na praia ou uma lua cheia entre morros, assistia atencioso meu sono.
Com os olhos quase fechando envolvi com minha mão sua nuca e guardei como tesouro a lembrança daquele momento, porque nada mais importava, fose sono ou calor. Só o amor expresso naqueles dois rostos tão próximos.
Sem palavras.
Momento pra recordar e expor placidamente numa bolha de sabão.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Ahh, essa menina....


Lá vai a menina falando de si mesma na terceira pessoa. Muitas vezes ouviu dizer que era perfeita, mas tem real consciência que não é. Porque insiste em ser modesta, mesmo quando sabe que não devia ser, e já ouviu muitos “Deixa de ser modesta, que saco!”.
A menina fica sozinha em casa, larga o uniforme amarrotado em cima da cama, esquece de pôr as meias pra lavar e acaba sempre perdendo um pé delas. Passa o tempo lendo revistas e livros ou desenhando e ouvindo música, e se esquece de lavar ou passar suas roupas, e depois não tem roupas limpas ou passadas pra vestir, ou esquece de lavar as louças, e sua mãe quando vê fica louca, ou esquece de estudar, fazer aquele exercício, separar a apostila que tinha de levar pra aula seguinte.

Esquece da vida e se atrasa pra aula de dança, desce as ruas da pequena cidade quase correndo e já chega na aula cansada. Fica sozinha e anda de calcinha pela casa, mas às vezes esquece alguma cortina aberta e corre a se abaixar para evitar o olhar dos vizinhos. Senta-se à mesa e tira os chinelos, estende uma perna apoiando o pé na outra cadeira e quando levanta esquece os chinelos embaixo da mesa. Esquece a garrafa d’água destampada e o pacote de pão aberto. Coloca o som no último volume, canta e dança feito louca (pobres vizinhos...).

Acaba com suas unhas, arrancando pedacinhos, cortando-as muito curtas, acaba se machucando. Não resiste a cutucar uma espinha na testa ou espremer um cravo no nariz. Passa os dias contando calorias, mas acaba deslizando e se tacando num pacote de bolachas ou numa lata de leite condensado.
Isola-se do mundo com seu MP4, e se transporta a um mundo paralelo, observando as pessoas, tentando imaginar o que sentem, porque são assim e não assado. Durante as aulas, ouve música, escreve textos na agenda e nos cadernos, desenha nas folhas da apostila onde devia fazer exercícios, se perde em pensamentos, não revela o que sente. Vê em cada coisa do seu dia um assunto para novos textos, escreve vários e muitos outros ficam só no projeto mental. Em vez de dizer o que sente, transforma os sentimentos em poesias, publica-os no blog e pede para estranhos lerem.
A menina se perde em sonhos, pensamentos, ilusões. Sonha alto mas nunca sai do lugar; as fitas das sapatilhas de ponta que usa em cada um desses sonhos amarram seus pés fortemente ao chão.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Projetos de um futuro bom

Um apartamento pequeno: sala, quarto, banheiro, cozinha e uma varandinha no centro de São Paulo. Na sala um sofá colorido, uma TV pequena, um rádio constantemente ligado, uma antiga vitrola. Na estante, prateleiras cheias de livros, CD´s, DVD´s e antigos discos de vinil. Num canto uma mesa redonda, um lap top e vários livros, projetos, trabalhos, canetas e lápis. Noutro canto uma poltrona e uma luminária de chão, cantinho da leitura. Pelas paredes quadros de camurça cheios de desenhos e recortes espetados com alfinetes.
Na cozinha uma mesinha de parede e banquinhos, armários branquinhos e a porta da geladeira coalhada de fotos em imãs. Pratos, copos e xícaras coloridos nos armários.Sobre a mesa joguinho americano , um pacote de pão integral pela metade, um pote de bolachas e outro de granola, um vidro de Nescafé, uma colher fora do lugar, uma garrafa de mel. Ao lado do microondas uma fruteira, algumas bananas (talvez um pouco passadas), umas laranjas, uma pêra. Na pia algumas louças por lavar, duas taças com um restinho de vinho no fundo.
No quarto, uma cama com almofadas coloridas e uma ou outra peça de roupa que não se guardou.Uma mesinha, um abajur, um livro, um porta retratos, os óculos. Uma arara cheia de cabides no lugar do guarda-roupa, uma cômoda com gavetas um pouco desarrumandas e sobre ela caixinhas e frasqueiras cheias de miudezas, um copo com pentes e escovas. Nos pés da cama um baú cheio de recordações, alguns all stars e chinelos jogados, ao canto um par de sapatilhas. Nas paredes quadros de metal com fotos, montagens com recortes e desenhos e umas telas. Um lampião japonês pendendo do teto.
No banheiro a pia cheia de frascos, uma escova de dentes e pasta. Um vasinho de flor.
Na varanda uma rede, vários vasos de plantas e pendurado um mensageiro dos ventos (aquela coisa que quando o vento bate faz barulho) de bambu.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Prisão de Sombras

Feriado, sol brilhando, aquela vontade de sair. Sentir o Sol na pele (que se foda o calor) e quem sabe um ventinho, ou uma sombra, sentar embaixo de uma árvore.
Mas não, com lágrimas quase caindo fui trazida de volta a essa casa. Grande, confortável. Detestável.Portas, janelas e cortinas fechadas, tudo na penumbra. Na sala luzes e ventilador ligados e na TV o eterno som do futebol. Me fechando, sufocando. Prisão de livros, desenhos e o brilho insensível do monitor.
Tento espantar os fantasmas. Saio de perto do interminável futebol e da sala artificial, ponho uma música vou pra fora. A horrível prisão da rotina... enfadonha.
Na hora em que finalmente saí, o tempo resolveu concordar com meu estado de espírito. Uma baita chuva. E depois andando pelas ruas estranhamente desertas de lojas fechadas, tempo fechado, uma nova e triste São Paulo. Onde normalmente se viam ambulantes e milhões de pés apressados, uma mendiga solitária encostada no parede de um grande prédio, ohando desolada a rua estranhamente silenciosa, e os poucos pés que passavam por ela.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Aula de ballet

5, 6, 7, 8....
estica a perna!, primeira posição!, olha a cabeça!, leveza! , marca essa cabeça!, e frapé, e balloné, e grand batteman, segue o tempo da música!!! plié! em baixo e relevé! fiquem, fiquem.... e desceu.
HOR-RI-VÉL!!!!!
tudo de novo

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Chuva e Lágrimas Cinzentas


São Paulo num dia de chuva
cinza, séria, barulhenta e corrida como sempre
e nesse dia de chuva, os rostos na periferia, no ponto de ônibus, no metrô lotado parecem ainda mais sem esperanças, apreensivos, cansados...
Numa rua estreita e movimentada,ônibus passando o tempo todo, de casas simples e comércio barato, suja e miserável, um sobradinho branco que se ergue acima da garagem desafiando o cinza dominante, e abaixo da janela com grades surge um canteirinho de flores vermelhas e espinhosas.
Numa grande avenida, correndo no meio do trânsito, quase uma dúzia de molequinhos de no máximo seis anos... caras e roupas sujas, alguns com tênis e sandálias velhas, outros descalços, segurando os chinelos na mão para correr, atravessando como um bando desnfreado a avenida e cruzando a frente de ônibus e carros.
No metrô uma mãe de rosto procupado, cansado e sem esperanças. E sua filha ao lado, essa como eu, quieta, observando os rostos e espressões. Mais tarde em outro vagão um velho mendigo, levando seus pertences dentro dum saco de estopa, curvado, os braços entre as pernas e cabeça baixa, como se tivesse vergonha de levantar o olhar, como se não pudessa oçhar as outras pessoas nos olhos, vergonha de admitir sua posição. Levanta-se, olha em volta rapidamente e desce na sua estação, andando curvado, olhar baixo...
...se vai, se perde entre às pessoas no metrô, triste e silencioso, no mar de rostos sem esperança e cansados,no caos do trânsito, na cinza São Paulo que chora junto com a chuva.

*Pulga atrás da orelha: Quem foi o anônimo que comentou aqui e me deixou um poema/música lindooooo do Oswaldo Montenegro???????????????????????? Pleeeeeeaseee identifique-se!!!

Metade de mim é amor... e a outra metade também

Metade

"Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisaque resta a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
e que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo se torne ao menossuportável
que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso
que eu me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fuia outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também."
(Oswaldo Montenegro)

sábado, 13 de janeiro de 2007

Poderias... ou não

O que realmente importa?
Planos futuros?
compatibilidade de expectativas?
Ou o hoje?
Por muito tempo me esquivei, e deixei de viver, por medo do que "poderia"
Enfim me libertei dos "poderias" .... eu quero saber do hoje
E hoje eu queria dormir abraçada contigo
E hoje eu digo que te amo
E só não quero pensar que um dia vai acabar
(pode ser semana que vem, ano que vem, daqui a dois anos ou a 80....)
Mas eu não quero pensar
Por favor não me faça pensar
não me deixe chorar, não me deixe voltar a viver nos "poderias"
porque só o que queria hoje era dormir enrolada em você
e o futuro tá que nem uma folha em branco
é a gente que vai desenhar a estrada pela qual seguimos.

sábado, 6 de janeiro de 2007

Ai....

Noite
Chuva
Saudades
Expectativa (FUVEST essa semana)
Frio
...
Um arrepio percorre meu corpo... sem sentido.... sem sentido
e negra é a perspectiva de passar um mês longe de ti...

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

È ANO NOVO
ROMPO A CASCA
E ME RENOVO
(Denizis Trindade)

Hoje um estranho vazio me invadiu. Talvez o dia, chuvoso e de céu cinza claro (quase branco) tenha influenciado. Talvez só o vazio comum das férias (a falta de compromissos). Mas a verdade é que nada perdi para sentir tamanho vazio. Somente um ano que ficou pra trás. (e que ano!)
Um ano com vários momentos difíceis, ruins, tristes, mas também com muitos momentos bons, felizes, emocionantes.
Nesse ano, quantas lágrimas derramei, por tristeza, preocupação, saudades, nervosismo, ou mesmo sem motivo. Quantas risadas dei (sorrisos, risadas, gargalhadas) felizes, incontroláveis, sem graça, engraçadíssimas, intermináveis. Quantos abraços dei, quantas pessoas abracei (ah os abraços, os adoro! esses, sempre sinceros!)
Quantos sonhos, projetos, expectativas... e também quantas decepções. Quantas surpresas inesperadas, quantas pequenas vitórias, quantos pequenos fracassos. Quantas tardes vazias, quantos passos. Quantas músicas cantei e ouvi repetidamente, quantos lápis gastei desenhando, quanto tempo passei quieta, olhando o céu e os morros até cansar. Quantas vezes tive vontade de sair correndo, quantas vezes saí sozinha sem saber que rumo tomar. Quantos beijos, quantos textos, quantas imagens, quantas piruetas, quantas conversas, quantos pulos, quanta gente.
Não há como fazer um balanço concluindo: “foi um ano bom” ou “foi um ano ruim”. Não. Foi um ano vivido. Porque acho que a vida é realmente isso, uma mistura de bons e maus momentos, felizes e tristes, luminosos e escuros. Sei é que foi um ano intenso, porque de todas sensações que experimentei, nenhuma foi superficial, irrelevante. Esse foi um ano que me marcou e me mudou muito. É isso, foi um ano de mudanças (aprender a lidar com mais problemas, aprender a ficar sozinha, aprender a estar junto). Foi um ano em que vivi, intensamente, e enfrentaria todos os maus momentos de novo, pois viver vale a pena.
Foi um ano de mudança, da vida fácil de criança, pra vida de verdade. Só o começo da vida. E se esse é só o começo, Meu Deus, quantos anos ainda estão por vir.
Temos todo tempo do mundo...
(somos tão jovens...)






Tudo que tenho é a certeza da incerteza do amanhã.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

There she goes...

There she goes again… (who is she?)
… walking down the street …(who is she?)

Vai pela rua, numa noite de Sexta-feira. Vai sozinha, com passos leves se equilibrando entre a sarjeta e a calçada.
Vai com um vestidinho rosa, chinelos havaianas, cabelos presos, uma flor atrás da orelha.

There she goes, there she goes, singing aloud. (Who is she? )
Vai cantando, braços abertos, como se só houvesse ela na rua. Vai cantando para a noite ouvir e nem se importa com as outras pessoas que a olham estranhando.
Numa mão um celular mal cuidado, na outra as chaves de casa.
Vai cantando, peito aberto, pela rua.

E naquele momento ela é feliz, naquele momento é ela mesma, naquele momento, verdadeira, cantando alto pras estrelas escutarem.

There she goes, there she goes, walking down the street, singing aloud, there she is, there she’s happy. Who is she???



“ …we’re all of the stars; we’re fading away; just try not to worry, you’ll see us someday…”

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Página Vazia

Uma noite quente de fim de ano
O vento sopra pela janela e refresca
E a menina dali olha a cidade
Da cozinha de sua casa, de seu mundinho
Uma luz acesa, uma xícara de café com leite
Um rádio tocando MPB
A menina e a mulher dentro de mim se mesclam
Sento aqui e escrevo
Escrevo só pelo prazer de escrever
Escrevo pra preencher mais uma noite sozinha
Escrevo porque a vida em palavras parece mais leve
Leve, fresca, morna, reconfortante, melodiosa
Como o vento que me bate às costas
Como a café com leite que tomo sem açúcar
Como a música que me acompanha sempre, e sempre preenche meus silêncios

Ao longe, num apartamento, uma luz se acende.
Observo do camarote da minha janela o acender e apagar das luzes da cidade,
Sento e escrevo.
Para preencher uma folha da agenda,
Uma noite,
Uma vida


"A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é pra corrigir essa distância que a literatura nos importa."
(Roland Barthes)

Ps.: o título "Página Vazia" é de um poema de Euclides da Cunha, poema que adoro

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Morros sem fim


Estava dentro do ônibus, numa viagem curtinha entre duas cidades esquecidas do interior de São Paulo. Voltando pra casa. Mas eu não queria chegar. Não queria chegar pra perceber que não mudou nada. Não queria chegar pra achar a casa sozinha, as mesmas bagunças que deixei quando saí, pouca comida na geladeira e as louças por lavar. Também não queria chegar para achar minha mãe com cara de entediada, agindo como se nem minha mãe fosse. Não queria chegar pra voltar de volta à realidade da minha vida. Não queria voltar. Não quero voltar. Não quero continuar. Tudo que queria era continuar naquele ônibus, ouvindo minhas músicas como estava, com o vento batendo na cara e vendo pela janela a procissão de paisagens passar sem fim. Morros, pastos, pedras, morros, cercas, casinhas, morros. Verdes, cobertos de imenso tapete verde ou de pequnas matas. Morros, morros, sem fim, banhados pela luz avermelhada do Sol já escondido, e o azul escuro da noite que enfim vinha chegando, já quase oito da noite, horário de verão. E ver as estrelas surgirem, e a lua aparecer. E continuar correndo. Mas lá na frente despontaram as luzes da cidade. O ônibus chegou ao seu destino, não ia continuar para lugar algum. E eu, resignada tive que voltar, novamente expulsa dos sonhos, caindo dolorosamente na minha realidade.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Museu de canudinho e detergente

Quero viver um amor
mas que seja um amor diferente
não é preciso durar para sempre,
mas preciso que seja intenso.
não é preciso que seja correto,
preciso que seja sincero.
Ele é feito aos pouquinhos
Vai se formando segundo a segundo
Palavra a palavra, olhar a olhar.
E vai se tecendo fio a fio,
Como incessante trabalho de tecedeira caprichosa.
Fio a beijo, fio a abraço, fio a toque, fio a sorriso.
E vai se formando e entrelaçando. Como uma esteira ou colcha
Estendida no chão pra gente deitar
E olhar o céu coalhado de estrelas.
Elas se espalham céu afora
E a gente noite adentro.
Não quero um amor pra mim
Quero um amor que esteja comigo
Não! Não quero posse privada
Quero é parceria
Quero uma imensidade de momentos pra lembrar
Momentos eternos nos poucos segundos em que se vão
E com eles montar um museu do meu amor
Cada eterno momento exposto placidamente
Dentro de uma bolha de sabão

sábado, 11 de novembro de 2006

Sonho de ponta

Lá está novamente a menina, dançando no meio da cozinha e sonhando, sonhando com o dia em que será realmente bailarina. Os pés descalços, sujos e machucados sobem na meia-ponta no chão frio, e ela sonha com sapatilhas de ponta cor-de-rosa e um linóleo estendido.
Ela sonha em aprender os nomes dos movimentos que vê e sonha em aprender a executá-los.
Faz piruetas marcando cabeça num ponto sobre a pia e sonhando com um espelho. Apóia-se na parede para fazer gran-pliés, sonhando com uma barra. Desvia das cadeiras para fazer um developé. Mira seu difuso reflexo na geladeira para observar a posição dos braços. E sonha com alguém ali para corrigir os defeitos que ela não vê.
Programa o pequeno rádio para repetir a única música no piano que tem. E dança. Dança e sonha. E no seu sonha ela não está descalça nem em mangas de camisa, na abafada cozinha. Ela vai nas pontas de sua sapatilha, com sua fina meia-calça, seu collant e tou-tou brilhantes. O cabelo, caprichosamente preso num coque e enfeitado por uma tiara, e o rosto delicadamente maquiado. E dança como se flutuasse, ao som de um piano de cauda e frente a uma platéia que a aplaude de pé.
Então ela abre os olhos e aterrisa dolorosamente na realidade. Está novamente descalça e descabelada na apertada cozinha. A luz, com mau contato, se apagou; e a música acabou. A cidade iluminada lá fora, vista pela janela aberta; a sua platéia; não pára a sua agitação noturna para aplaudir.
A menina interrompe sua dança, vai tomar banho, deitar, dormir. E quem sabe, adormecida, retorne ao seu sonho. Sonho cor-de-rosa ao som do piano. Sonho de ser, de verdade, bailarina.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Why perfect...

Saí pela rua e vi um mundo lindo. Nada tinha mudado de lugar, mas eu via mais flores, mais folhas, ouvia mais pássaros, e um Sol quente de verão clareava tudo. E a música parecia mais melodiosa em meus ouvidos, e as pessoas nas ruas pareciam mais vivas aos meus olhos, e um Papai-Noel adiantado na janela vinha avisar que o ano está acabando.
E alguma força misteriosa me fez fazer uma pirueta no meio da rua, e sorrir ao senhor gorducho que me olhava curioso. E ele retribui o sorriso.
E numa esquina qualquer um incrível perfume de flores me entorpeceu os sentidos e passei a dar sorrisos sem motivo, porque na verdade tinha milhões de motivos para sorrir. Milhões de motivos porque tenho uma vida perfeita.
Perfeita porque uma borboleta esvoaçou à minha frente, e um passarinho qualquer pousou num fio.
Perfeita porque estava voltando da escola com uma mochila pesada sob um Sol quente, porque tinha da onde vir e pra onde ir, e coisas das quais eu gosto para carregar, e porque moro num país onde o Sol brilha o ano inteiro.
Perfeita porque tinha quem encontrar no meio do caminho para trocar uma palavra animada.
Perfeita porque não sou uma modelo de corpo perfeito nem pele de pêssego, então pouco me importa se tenho um quilo ou um cravo a mais, isso não vai definir as pessoas que gostam ou não de mim.
Perfeita porque uso meu All-Star rosa velho e rasgado, e não o troco por nada.
Perfeita porque vai ter algo me esperando quando chegar em casa, nem que seja meu cachorro esfomeado es as correspondências.
Perfeita porque tenho um quarto bagunçado cheio de mim pra arrumar.
Perfeita porque posso arrancar os sapatos, colocar um som e achar um restinho e brigadeiro na geladeira.
Perfeita porque posso me jogar na cama desarrumada e fechar os olhos.
Perfeita porque posso tomar um banho gelado pra afastar o calor.
Perfeita porque também tenho problemas e choro, e tem dias em que estou mal e me sinto doente. Porque também grito e xingo e tenho raiva. Porque amo, mas também odeio, e posso tanto agradar como desagradar.
Perfeita porque alegrias e tristezas andam de mãos dadas, e elas me fizeram do jeito que sou.
Perfeita porque de repente, hoje, vi o mundo por trás de lentes cor-de-rosa (ou roxas, que são mais do meu agrado).
Perfeita porque posso deitar o chão do quintal para ver a Lua ou as estrelas (e elas sorriem).
Perfeita porque posso rir e chorar sem motivo, porque tenho milhões deles.
Minha via é perfeita por ser simples e comum.E eu sou tão incomum por ver perfeição nela.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Brigadeiro

Pensamentos tomados pelo filme Efeito Borboleta.
"O simples bater e asas de uma borboleta pode causar um tufão do outro lado do mundo."
O leque de possibilidades é imenso quando se pensa no que poderia ter acontecido se algo não fosse extamente como foi. Se não tivesse saído aquela noite, se não tivesse ido àquela excurssão... então o que aconteceria com nós? E se tudo tivesse acontecido mais rápido, e se tivesse te encontrado antes? E se nunca tivesse te conhecido, como estaria agora? E se tivesse me decidido antes, como estaria agora? Qual seriam minhas perspectivas agora? E como será meu próximo ano graças às escolhas que fiz pouco antes?
E como seria a história se fosse modificada? Será que estaria aqui agora, comedo brigadeiro e estudando para a prova de geografia? (sim, é isso que estou fazendo agora)
Nesse louco jogo de possibilidades, o melhor é afastar a tentação de cair em pensamentos de "será que" e viver o que tem de ser vivido agora; deixar o futuro para o futuro.

"Amor é a vida acontecendo no momento. Nem passado nem futuro. Presente puro. Eternidade numa bolha de sabão."

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Finados...

O cemitério numa tardde de finados, estava cheio. Eram crianças correndo lá fora, conversas animadas, carrinhos vendendo picolés. Tem de minlho verde? Cadê a cumadre? Ah, dá um de côco então.
Um local normalmente silencioso, nesse dia se faz abrulhento e agitado. O movimento por entre as alamedas estreitas é intenso, de gente indo pra cima e pra baixo, em bandos, indo visitar seus mortos. Na entrada vê-se os belos túmulos, de mármore negro e branco. E conforme vai-se adentrando para os fundos do pequeno cemitério, acham-se os simples túmulos. Baixos, cobertos de azulejos e com simples placas. Alguns simplesmente rebocados e pintados de branco, sem nenhum epitáfio para que se reconheça, apenas uma minúscula placa de madeira com um número. Não datas ou nomes, só um número, o número que sobrou a esse desconhecido, o número de sua cova. Todos os simples túmulos enfeitados por feias flores de plástico, ridiculamente coloridas, sem a menor intenção de parecerem reais.
E num ato que talvez lhes pareçam normal, as pessoa sentam-se sobre os túmulos como se estivessem na sala de casa, e começam uma animada conversa. Excurssão ao cemitério só para seguir com a tradição.
Então a chuva chega inesperada, fazendo todos correrem procurando abrigo. E o cemitério retorna à antiga paz.

Quando meu bem vai embora....

Procurando inspiração nas gotas da chuva que caem incessantemente.
O silêncio da casa deserta na madrugada só é quebrado pelo som do teclado, que bate acelerado sua melodia de uma nota só, apesar de tantas teclas.
O vento fresco que entra pela janela, com ar de chuva faz o corpo arrepiar. Já estou mesmo toda quebrada, sou como uma boneca de pano, que se deixa cair na cadeira sem forças para levantar.
A solidão só faz crescer a saudade...quando a semana, mesmo reduzida, parece ter vinte dias, porque você não está aqui.

"O relógio das saudades anda suspenso nas horas. Só quem não ama não sabe quando meu bem vai embora. Quando meu bem me visita, se tô doente melhora. Retomo a mesma doença quando meu bem vai embora. Quando meu bem vai embora minuto parece hora, hora parece dia, dia pare ano, quando meu bem vai embora."
(trecho do espetáculo Os Sons Antigos de Águas Apagadas)

a saudade tem o doce cheiro de flores depois da chuva em uma noite de verão, porque sei que essa saudade dura só mais um dia, então te encontrarei.
Doce saudade, só faz encher o coração de cheiro de flores depois de chuvas de verão, só porque estou lembrando de ti.