segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Lição de viagem

As paisagens correndo pelas janelas do carro dançam ao som de uma valsa de Strauss.
Verde, azul, marrom, amarelado. A plantação de sorgo forma curvas efêmeras em sua superfície, passam pelos olhos como numa ilusão. Ao longe, na estrada reta mas não plana, os morros sucessivos brincam de esconder-se uns atrás dos outros, e reaparecer como que por mágica. Dançam.
Mais impressionante, ainda, é a explosão de céu. Vem lá longe o viaduto, com um retangulozinho de azul por baixo, uma tripinha apenas. Vem se aproximando, aumenta como o crescer dos instrumentos numa orquestra, o retângulo azul. E quanto mais perto, mais rápido, em êxtase. Por fim o viaduto passa, e o azul explode por todos os lados. Estraçalha a moldura cinza de cimento, e passamos a correr dentro da explosão da cor de violinos.
Desceu o sol, acenderam-se as estrelas, e, como que dando adeus ao carro em etapa final de viagem, o Curiango canta seu canto de solidão. Nos últmos momentos de velocidade, correm luminosos dois rios paralelos, serpenteantes, ligeiros, opostos. Sêmem e sangue, acompanhados de tango.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009


domingo, 18 de outubro de 2009

Da dificuldade de se escrever sobre amor

É simples escrever só sobre amor.
Poderia facilmente descrever belas cenas vividas, doces sensações, elencar uma série de pequenos detalhes, pequeninos encantos, e dizer o quê e o quanto eles significam para mim.
Acontece que tantos textos assim já escrevi, recheados de encanto, doçura e imaturidade, que seria leviano escrever agora outros mais, aproximando assim, por meio de palavras, o presente do passado.
Guardo, agora calada, toda doçura, todos detalhes, pequeninos encantos e o que significam para mim. Calo-os, guardo-os, digiro-os, amadureço-os para que depois, bem depois, quem sabe (e bem quem sabe), possa escrevê-los com a dignidade que merece esse amor.


"A dança tem de ser como um sussuro, só para dentro do casal."


O Seu Santo Nome - Carlos Drummond de Andrade
Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão ( e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Vereda

O calor da tarde de novembro e a sonolência da sesta embalavam-na. O ar, parado, preenchido pelos murmúrios da televisão e o zunir de uma mosca. Batia incessante, incessantemente na janela, tentando retornar à rua.

Pernas flexionadas, plantas dos pés no chão, brincava com os dedinhos na textura do tapete. O calor, tanto, que suspendeu o tecido leve do vestido acima da cintura. Algodão branco, estrelas azuis, pousou-as sobre o peito. As mãos, acomodou-as sobre a pele fresca, agora livre, da barriga, que ronronava ainda e fazia os leves movimentos da digestão.

Os pensamentos passeavam, fiapos, soltos, aéreos, quarto abafado. Passeavam pelos acontecimentos, pelas palavras da senhora advertindo-a... Então... Mocinha... Sim, sabia também de várias colegas, da escola... Ah, mas essa mosca não sairá nunca para a rua? ... As colegas falavam de meninos, houve uma vez aquela festinha... Ai, lábios? Línguas? ... Sensação estranha deve ser, só pode! ... Podia abrir a janela para a mosca sair...

Tentou mover um pouco as mãos, levantar-se em direção à janela, tentativa sem forças. Pensamentos, fiapos, uma curiosidade foi tomando-a. Curiosidade lenta, receosa, fez sua mão, dedos finos, unhas roídas, deslizar lentamente, passando pelo umbigo em direção ao baixo ventre. Sentia ali, respiração, pele, penugem dourada.

Os músculos contraíram-se. O que fazia? Não parou, entretanto, o movimento lento e contínuo, numa linha descendente por seu corpo. Chegou à margem da calcinha, infiltrou os dedos por baixo do elástico, a boca já seca. Seguiam os dedos como cladestinos, invasores de um terreno privado, lentos, quietos, curiosos.

Passaram pela aspereza dos primeiros pelos púbios, inda nascentes. Os joelhos cederam para os lados, moles. Um estremecimento leve e constante, recheado de receio, sacudia o corpo magro. Sentia a ansiedade e excitação de um desbravador, que aprende lentamente os caminhos de um terra nova, não explorada.

Os dedos tateavam agora as macias carnes, tentando compreender sua anatomia. Percebeu a área úmida. Forças opostas pareciam agir sobre seu braço. Um pouco mais, só... Cerrou os olhos, lábios entreabertos. Só...

Paralisou-se, assustada. Quão longe fora! As pernas tremiam, moles como gelatina. Coração em baque disparado, boca seca.

Lentamente, lentamente, encolheu-se. A mosca já não zunia na janela... Acomodou-se. Ninho de almofadas. Aninhou-se. Urso de pelúcia. Abraçou-o. Lenta, lenta. Adormeceu.

domingo, 4 de outubro de 2009

Porque é tempo de fazer tempo

O Analfabeto Político - Bertold Brecht

O pior analfabeto
é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala,

nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,

do peixe, da farinha, do aluguel,
do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto Politico é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política,

nasce a prostituta, o menor abandonado,
o assaltante e o pior de todos os bandidos,

que é o político vigarista, pilantra, corrupto
e lacaio ds empresas nacionais e internacionais.


Soube que vocês nada querem aprender - Bertold Brecht

Soube que vocês nada querem aprender
Então devo concluir que são milionários
Seu futuro está garantido-à sua frente
Iluminado. Seus pais
Cuidaram para que seus pés
Não topassem com nenhuma pedra.
Neste caso, você nada precisa aprender.
Assim como é
Pode ficar.

Havendo ainda dificuldades, pois os tempos
Como ouvi dizer, são incertos
Você tem seus líderes, que lhe dizem exatamente
O que tem a fazer, para que vocês estejam bem.
Eles leram aqueles que sabem
As verdades válidas para todos os tempos
E as receitas que sempre funcionam.
Onde há tantos a seu favor,
Você não precisa levantar um dedo.

Sem dúvida, se fosse diferente
Você teria que aprender

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Verde. Azul...

Era linda. Se não a encontrasse ali, diria uma turista europeia, visitando o Brasil. Roupa despojada, dia de calor.

Sentada à mesa ao lado, veio me interrogar. Fizera FAU, falava engraçado. Julguei ser o sotaque, alemão talvez. Alemã, loira, cachos.
Mas não era alemão o sotaque, era psiquiátrico.

Veio interrogar-me com ânsia, corpo inclinado para frente. Os olhos, os olhos.... claros, no meio termo entre o verde e o azul. Aquele belo meio termo. Grandes, grandes, fixos em mim, interrogadores, estalados, suplicantes, suplicando uma resposta. O rosto, belo rosto, todo súplica, todo tenso, esperando...

Esperando não, não podia esperar! Ânsia! Questionava a mim e a qualquer um a dúvida que a atormentava. Qualquer um servia. Não podia segurar a pergunta.

Inclinou-se, trespassada de ansiedade.

"É possível voltar atrás em alguma coisa que se fez? É possível voltar atrás?"

Ânsia. Olhos. Meio-termo. Súplica.

"Eu disse que queria virar puta, você acha que eu posso voltar atrás?"

Olhos. Súplica.
Me responde! Me responde! Eu preciso de uma resposta!, me diziam os olhos.
Verde. Azul. Súplica.

"E eu me queimava também. Queimava a pele com ponta de cigarro."

A pele tão clara.... tão fina... Olhos, infantis. Me olhavam de baixo, da cadeira. Os olhos de uma criança. Confessando que quebrara o vaso da sala.

...mas é que foi sem querer... eu tropecei... não queria mesmo quebrar...

Ela não queria quebrar o vaso...

Ela não queria....

Verde. Azul. Deram um nó dentro de mim.

"A gente sempre pode voltar atrás. Sempre pode... Não faz mais assim não. Vacê é tão bonita...."

Ela sorriu. Criança. Criança à qual se dá agrado. Agrado. Os olhos pedindo: "me agrada?"

Ah, criança...
Verde. Azul. Nó.
No estômago, na garganta, nariz, olhos.

"Brigada! Você também, é linda!"

"Tchau, bom almoço!"

Vim com meu nó. Não almocei.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Domingo

Dona Terezinha parou a varreção da casa para atender o vendedor das cartelas de jogo.

- Dia, Dona Terezinha! Tudo certo?

Destrancou o cadeado, subiram à cozinha. Serviu no copo o café, acendeu um cigarro. Ele espalhou pela mesa as cartelas coloridas. O barulho da panela e o cheiro de feijão cozido enchiam o cômodo.

- Pois hoje eu sonhei com um bicho meio amarelo, seu Rui, comprido...

- Joga na girafa, então, que sorte de sonho é coisa certa! E, olha só, hoje tenho uma rifa também, é de uma batedeira, uma belezura! Dois reais o nome.

Examinou a cartela. Decidiu-se por Adelaide, Elizabeth e Márcia. Foi ao quarto, tirou da lata de biscoitos, sob as roupas por passar, algumas notas amassadas, pagou o homem.

- Volto na terça. Bom domingo!

Terminou a varreção, separou feijão cozido. Ahh, o remédio da pressão! A cartela estava quase acabando e nem meio de mês era ainda. Encheu o copo de café, acendeu um cigarro, ligou a TV.

Tirou da gaveta as Tele-Senas. Era dia de sorteio. Do Carnê do Baú já ganhara um liquidificador e um aparelho de barbear, que dera ao filho. Da Tele-Sena ganhara numa ocasião cento e vinte e dois reais e quarenta centavos. Dezoito anos apostando.

Até agora, sorte pequena, mas a sorte grande devia logo chegar. Inscrevia-se também em programas de auditório. Por três vezes fora assistir a gravações, mas nunca conseguira participar. Maior tristeza quando fora pré-selecionada para o Topa Tudo Por Dinheiro, mas justo naquele final de ano em que passara as festas com a família no Alagoas ...

Separou a cartela do dia, conferiu os números marcados, rezou uma Ave-Maria, beijou o papel colorido. Chegaram a filha e os dois netos.

- Mãe, não termina o almoço não, hoje a gente vai pro shopping.

Ah, mas cada ideia! Queriam é fazê-la perder o sorteio na TV, só podia. Relutou um pouco, mas não houve jeito. Desceram a ladeira até o ponto de ônibus. Enquanto esperavam, fumou um cigarro.

O ônibus estava cheio. Ainda bem que domingo não tinha trânsito. O shopping, incrivelmente lotado. Era preciso segurar firme as crianças e abrir caminho até a praça de alimentação.

- Mãe, acho bom a senhora não comer do McDonalds, não. Lembra do colesterol que tá alto?

Procurou uma opção mais saudável de almoço. Encontrou, meio afastado dos outros, um lugar que servia pratos light. Vixe!!! Mas vinte reais só um prato de salada? Acabou comendo um pastel.

As crianças, não satisfeitas com os brindes do lanche, queriam parque. O lugar era cheio de luzes e barulho. Saiu pelo corredor, foi às casas lotéricas. A Mega-Sena estava acumulada novamente. Fez um jogo. Ali, uma TV. Logo mais, o sorteio da Tele-Sena. Sentou-se num banco, acendeu um cigarro.

- Com licença, senhora, não é mais permitido fumar no interior do shopping.

Mas como? E essa agora! Tinha de ir até o estacionamento externo se quisesse fumar. Apagou o cigarro, assistiu ao sorteio. Quase! Voltou ao parque.

- Mãe, onde é que a senhora estava? Tem de olhar as crianças para eu passar nas Pernambucanas!

Ficou com os pequenos. Fizeram birra por chocolate. Gritavam demais. Comprou um para cada. Passaram no supermercado. Foram ao ponto, acendeu um cigarro. Pegaram o ônibus, lotado de gente com muitas sacolas e que falava demais.

Subiram a ladeira. Com vagar, que as pernas já não eram as mesmas de antes. Despediu-se dos netos, ligou a TV, acendeu um cigarro. Podia agora, ao menos assistir o final do Sílvio Santos.